Argentina julga 'anjo da morte', repressor 'símbolo' da ditadura

Começou nesta sexta-feira o julgamento do ex-capitão da Marinha argentina Alfredo Astiz, símbolo da feroz repressão que deixou pelo menos 11.000 mortos durante a ditadura no país (1976-83).

DANIELA DESANTIS, REUTERS

11 de dezembro de 2009 | 18h04

Astiz, de 57 anos, conhecido como "anjo da morte", é acusado pelo sumiço das freiras francesas Leonie Duquet e Alice Domond e do jornalista argentino Rodolfo Walsh.

O ex-militar aparentava serenidade no início do julgamento. Ele está detido por diversos delitos de lesa-humanidade cometidos na Escola de Mecânica da Marinha (Esma), principal centro clandestino de detenção da época.

"Tenho a sensação de que sempre vai faltar algo. Mas espero, sim, que haja sensibilidade para os depoimentos, respeito aos companheiros e, finalmente, justiça", disse à Reuters Victor Basterra, um sobrevivente entre os mais de 5.000 prisioneiros que passaram pela Esma.

O "megajulgamento" do caso Esma agrupa dezenas de processos por violações dos direitos humanos durante a ditadura. Os processos começaram a ocorrer a partir dos governos de Nestor Kichner e da mulher dele, Cristina Fernández, que revogaram leis de anistia que beneficiavam militares e policiais.

O julgamento é acompanhado por sobreviventes e parentes de vítimas da ditadura. Do lado de fora do tribunal, cerca de 50 pessoas agitavam cartazes com frases como "prisão para os genocidas" e vestiam camisetas com dizeres "julgamento e castigo".

A cúpula da ditadura foi condenada na década de 1980, mas posteriormente recebeu um indulto, para voltar a ser julgada mais recentemente.

As forças de segurança são acusadas de sequestrar e torturar adversários de esquerda, para depois assassiná-los. Os corpos muitas vezes eram queimados ou jogados no mar. Muitas das vítimas não pertenciam a guerrilhas esquerdistas.

Astiz já foi condenado à revelia na França à pena de prisão perpétua pelo assassinato das duas freiras, o que fez dele um símbolo internacional dos abusos da ditadura argentina. Ele já foi atacado várias vezes ao sair às ruas na Argentina.

Na véspera do início do julgamento, Astiz demitiu seu advogado e se negou a reconhecer a autoridade do tribunal, numa tentativa de protelar um processo que deve ouvir mais de 280 testemunhas e durar entre seis e oito meses.

Numa entrevista em 1998, Astiz defendeu os crimes cometidos durante a ditadura, alegando que eram a única maneira de combater a subversão esquerdista.

(Reportagem adicional de Luis Andrés Henao)

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