Argentina ordena afastamento de envolvidos na ditadura

Ministra pede que três militares da reserva sejam retirados de funções docentes e de assessoria oficiais

Agência Estado e Associated Press,

29 de janeiro de 2008 | 13h24

A ministra da Defesa argentina, Nilda Garré, ordenou à Marinha para afastar de funções docentes e de assessoria oficiais que estiveram envolvidos na repressão ilegal da ditadura militar, instaurada em 1976, ou que defenderam seus métodos, informou um comunicado do ministério nesta terça-feira, 29. O comunicado da Defesa esclarece que o pedido da ministra se refere aos almirantes da reserva Roberto Pertussio e Miguel Troitiño e ao capitão da reserva Hugo Santillán. Pertussio está sendo processado por crimes de lesa humanidade pela justiça federal na cidade de Mar del Plata. Mas continuava mantendo suas funções no Centro de Estudos Estratégicos daMarinha. A ordem foi enviada na segunda-feira, 28, pela ministra Garré ao almirante Jorge Godoy, chefe do Estado Maior da Marinha. A Marinha tem sido, desde o restabelecimento democrático em 1983 a arma mais resistente em fazer uma autocrítica de sua responsabilidade nos delitos de lesa humanidade ocorridos durante o regime militar. Em 2004, o almirante Godoy, nomeado pelo ex-presidente Néstor Kirchner e mantido no posto pela atual presidenta Cristina Fernández, condenou os feitos em uma mensagem pública no dia da Marinha. Troitiño não poderá cumprir tarefas docentes ou de assessoria "em razão de sua participação e defesa de ações próprias de terrorismo de Estado", disse o comunicado. Por sua vez, Santillán não poderá realizar tarefas educativas. Ele foi afastado da direção do Escola Naval Almirante Brown por criticar a mudança desse instituto, que funcionava nas dependências da Escola de Mecânica da Armada (ESMA), hoje convertida em Museu da Memória dos crimes de lesa humanidade cometidos pelo regime militar. A ESMA, onde se formavam os suboficiais navais, foi um dos piores centros de execuções sumárias, torturas e detenções ilegais durante a ditadura. Em suas masmorras passaram cerca de 5 mil pessoas, a maioria delas figurando hoje como "desaparecidas". A ministra Garré também pediu ao comandante da Marinha um rápido relatório sobre a participação desse serviço no caso da morte do ex-repressor Héctor Febres.  Febres, ex-oficial da Prefeitura Naval (polícia costeira) que estava detido, apareceu envenenado por cianureto em uma cela no dia 10 de dezembro, dois dias antes de ser proferida uma sentença no julgamento em que era acusado de ter torturado detidos na ESMA durante o regime militar. O pedido de relatório de Garré segue uma informação da investigação sobre a morte de Febres que comprovou que durante sua prolongada detenção ele passou três temporadas de férias em um arsenal da marinha, sem autorização judicial. A justiça suspeita que Febres não se suicidou, mas que foi envenenado já que teria dito que, se fosse condenado, faria revelações comprometedoras sobre outros repressores.

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