Arquivos das Farc mostram relações da guerrilha com Hugo Chávez

A guerrilha colombiana Farc pode ter tentado assassinar adversários do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e dado treinamentos de guerra urbana para seguidores dele, segundo uma análise de milhares de documentos apreendidos dos rebeldes.

MICA ROSENBERG, REUTERS

10 de maio de 2011 | 21h55

O estudo dos arquivos apreendidos numa ação militar em 2008 no Equador revela também que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) deram cerca de 400 mil dólares à campanha eleitoral de Rafael Correa à presidência do Equador.

A análise foi publicada na terça-feira pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IIEE), de Londres. A embaixada venezuelana na Grã-Bretanha questionou a autenticidade desses arquivos e disse se tratar de um "dossiê furtivo", que se destina a perturbar as relações entre Caracas e Bogotá.

As acusações já eram mais ou menos conhecidas desde que militares colombianos apreenderam discos rígidos de computadores pertencentes a Raúl Reyes, líder das Farc, no acampamento equatoriano onde ele e outros rebeldes foram mortos, há três anos.

"Grande parte deste material tem viajado para o domínio público de uma forma ou de outra nos últimos três anos, mas a utilidade desse dossiê é que ele oferece uma confirmação autêntica pela perspectiva das Farc", disse à Reuters Nigel Inkster, do IIEE.

A Colômbia entregou os arquivos completos ao IIEE, uma entidade independente, para que eles fossem estudados depois de terem sua autenticidade confirmada pela Interpol.

O ataque de 2008 provocou uma disputa diplomática entre o então presidente da Colômbia, o conservador Álvaro Uribe, e os governos esquerdistas de Venezuela e Equador. Na época, Uribe irritou Chávez ao acusar a Venezuela de ter dado abrigo e apoio a guerrilheiros.

As relações entre Caracas e Bogotá melhoraram notavelmente desde que Uribe foi sucedido por Juan Manuel Santos, em agosto passado.

A Venezuela sempre colocou em dúvida o conteúdo dos arquivos apreendidos na ação militar, e na terça-feira sua embaixada em Londres disse que há "sérias dúvidas sobre a autenticidade e validade da informação."

"Isso pode ser parte de uma ferramenta agressiva de propaganda contra a Venezuela para abalar o progresso na região, precisamente num momento em que as relações entre Venezuela e Colômbia atingiram um nível de cooperação estável e diálogo amistoso", afirmou a embaixada em nota.

Segundo os arquivos, as Farc responderam a pedidos dos serviços venezuelanos de inteligência para que oferecessem treinamento de guerrilha urbana a grupos pró-Chávez, numa época em que o líder socialista se sentia vulnerável, depois de uma tentativa de golpe em 2002.

"O arquivo oferece sugestões assustadoras, mas afinal não-provadas, de que as Farc podem ter realizado assassinatos de adversários políticos de Chávez", disse Inkster numa apresentação.

Os documentos mostram também que Correa recebeu doações eleitorais da guerrilha, embora isso não necessariamente tenha se traduzido em favores do governo equatoriano.

O governo do Equador não se manifestou.

O governo colombiano disse que não comentaria as conclusões da análise. O vice-presidente Angelino Garzón disse a uma rádio que as relações com a Venezuela "são muito boas, e a posição do governo do presidente Santos é fortalecê-las ainda mais."

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