Aumenta o caos na retirada de centenas de turistas do Peru

Cerca de 1.500 ainda permanecem isoladas em Machu Picchu; turistas criaram comissão para organizar resgate

Reuters e Efe

27 de janeiro de 2010 | 17h53

Área inundada pelo rio Cuzco no povoado de Machu Picchu. Foto: Martin Mejia/AP

 

LIMA - Pelo menos 1.500 turistas esperavam para ser retirados por ar na quarta-feira de uma localidade próxima às ruínas incas de Machu Picchu, no sudeste do Peru, onde estão retidos desde domingo por causa das fortes chuvas.

Muitos turistas, a maioria estrangeiros, tiveram de dormir em barracas ou em abrigos improvisados na cidade de Aguas Calientes, enquanto cresce a preocupação com a falta de alimentos e outros itens essenciais, segundo testemunhas.

"Alguns dormiram ao relento, nos vagões do trem, sem itens básicos de limpeza, por exemplo", disse por telefone a uma emissora de TV a agente de turismo Cecila Molina, que está em Aguas Calientes.  

Essa pequena cidade fica ao pé da montanha onde está Machu Picchu, principal atração turística do Peru. A região tem sofrido nos últimos dias fortes chuvas, que interromperam estradas e ferrovias e provocaram deslizamentos que mataram ao menos cinco pessoas.

Exceto pela trilha inca que dura quatro dias de caminhada, o único acesso a Machu Picchu é por trem. A última composição deixou a região no domingo, e desde então a empresa responsável considera que não há mais condições de operação.    

 

Comissão

 

Os turistas isolados  se organizaram nesta quarta para fazer frente ao caos e serem evacuados do local. "Hoje (quarta-feira) se pôde organizar uma comissão de representantes de todos os países como Argentina, Brasil, Chile, da União Europeia, Áustria e Holanda", disse nesta quarta, 27, o chileno Eduardo Asfura em uma entrevista por telefone de Machu Picchu à Efe.

 

A razão para a criação da comissão é que "as autoridades locais têm sido um pouco inoperantes", disse Asfura ao referir-se à tensa espera que enfrentam os turistas para deixar a cidade.

 

A comissão formada está organizando o processo de evacuação "em vínculo com alguns doutores, que deram conselhos para evitar enfermidades e atenderam alguns doentes", comentou Asfura.

 

Os turistas combinaram com as autoridades locais a vigilância dos preços em Machu Picchu, pois muitos comerciantes se aproveitaram da emergência para elevá-los e, depois de vários dias isolados, o dinheiro de muitos turistas acabou.

 

Além do mais, foram registrados "alguns distúrbios" devido ao fato de que "muitos cidadãos dos Estados Unidos e outras nacionalidades pagaram para que os helicópteros (enviados pelo governo peruano) os resgatassem prioritariamente", afirmou.

 

Segundo denúncias noticiadas pela imprensa, alguns guias turísticos e policiais teriam pedido até 500 dólares para colocar os turistas nos helicópteros de evacuação, informações negadas pelos ministros peruanos de Comércio Exterior e Turismo, Martín Pérez, e da Mulher e Desenvolvimento Social, Nídia Vílchez.

 

"Para evitar o caos, "foi estabelecido um critério de evacuação", que é a idade, "sem importar a nacionalidade das pessoas", declarou o ministro Pérez à Rádio Programas do Peru (RPP). Pérez enfatizou que além da idade, se tem em conta os turistas que têm problemas de saúde, gestantes e famílias com crianças.

 

O governo explicou que a evacuação dos 1.500 turistas que ainda permanecem isolados em Machu Picchu, a razão de 120 passageiros por hora em 11 helicópteros, dependerá da melhora das condições climáticas.

 

Retirada lenta 

O primeiro-ministro, Javier Valásquez, disse que até o momento 700 turistas foram retirados por helicópteros da polícia nacional e do Exército no Peru. Todos estão sendo levados até Ollantaytambo, perto da cidade de Cusco, que não sofreu muito com as chuvas.

Antes, o ministro peruano de Comércio e Turismo, Martín Pérez, disse que até quarta-feira espera retirar 800 turistas através de uma ponte aérea em 10 helicópteros, embora "tudo ainda dependa das condições climáticas".

Machu Picchu fica cerca de 2.450 metros acima do nível do mar, e a uns 1.100 quilômetros de Lima.

Funcionários da Defesa Civil disseram que as chuvas na região de Cusco devem durar até o fim de semana, mas com menor intensidade nos próximos dias.

A agente turística Molina disse que há crianças entre os turistas, que a alimentação é escassa, e que alguns comerciantes triplicaram o preço dos seus produtos.

A maioria dos turistas é da América do Sul, mas há também norte-americanos, europeus e asiáticos.

O governador da região de Cusco, Hugo Gonzáles, disse que o mau tempo já destruiu 1.200 casas, danificou 1.332 outras e afetou 10 mil pessoas. Oito pontes caíram, e 9.000 hectares de lavouras foram destruídos.

As chuvas de verão, frequentes nos Andes peruanos, estão mais intensas neste ano por causa do fenômeno El Niño, que segundo especialistas durará até meados de 2010.

O El Niño é um aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial, que causa chuvas excessivas em algumas áreas do planeta, e secas em outras. 

 

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