Aumento da pobreza marca campanha eleitoral no México

Quando Felipe Calderón tomou posse como presidente do México, há cinco anos, ele prometeu reduzir a pobreza no país. Ao invés disso, milhões de mexicanos passaram a engrossar essa estatística.

RACHEL URANGA, REUTERS

27 de dezembro de 2011 | 20h31

A pobreza é vista como um fator que atravanca o crescimento econômico do México e alimenta os violentos cartéis do narcotráfico. O debate a respeito desse problema tem dominado o discurso dos candidatos à sucessão de Calderón na eleição presidencial de julho.

À esquerda e à direita, os políticos prometem maneiras de ampliar a arrecadação tributária, melhorar o sistema educacional e reduzir a concentração de riquezas. Mas a tarefa para o próximo presidente será gigantesca, ainda mais porque mais de um quarto da economia mexicana está no setor informal.

O México é a terra do homem mais rico do mundo, Carlos Slim. No final do ano passado, ele tinha uma fortuna estimada pela revista Forbes em 74 bilhões de dólares, algo equivalente à 6,6 por cento da produção econômica do México em um ano.

A poucos quarteirões da Bolsa mexicana, dominada pelas empresas de Slim, Marcial Maya ganha cerca de 80 pesos (5,80 dólares) por dia vendendo castanhas, chicletes e cigarros nos semáforos. Nesse ritmo, ele precisaria trabalhar durante 35 milhões de anos, sem tirar folga nem gastar um tostão, para se equiparar à fortuna de Slim.

"Eu tenho seis filhos, quero que eles estudem, mas estou a ponto de pedir a eles que saiam da escola", disse Maya, de 37 anos. "Simplesmente não tenho mais como sustentar."

Cerca de metade da população mexicana vive abaixo da linha de pobreza, e o país não foi capaz de imitar a outra grande economia latino-americana, o Brasil, em seus avanços significativos contra a pobreza.

ANOS PERDIDOS

A crise econômica mundial é parte do problema, especialmente porque o México é muito dependente das exportações para os EUA. Mas Calderón também é criticado por não ter conseguido estimular a economia interna. Desde 2003, o crescimento médio do PIB mexicano foi de 2,2 por cento ao ano, cerca de metade da taxa geral para a América Latina e o Caribe.

Entre 2006 e 2010, o número de mexicanos que vivem com até 2.100 pesos (150 dólares) por mês saltou de 45,5 milhões para 58 milhões, segundo a Coneval, órgão governamental de estatísticas.

Em 2008, o governo alterou a definição oficial de pobreza, passando milhões de pessoas para a classe média. Mas, mesmo pela nova metodologia, o número de pobres subiu mais de 3 milhões desde então, chegando a 52 milhões.

Os 10 por cento mais ricos da população mexicana ganham em média 27 vezes mais do que os 10 por cento mais pobres, de acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).

Nos EUA, por exemplo, a disparidade entre os mais ricos e os mais pobres é de 14 vezes.

O principal programa mexicano de combate à pobreza, chamado Oportunidades, beneficia 5,8 milhões de famílias, principalmente em zonas rurais.

A verba para o programa mais do que dobrou desde 2003, e mais de 1 milhão de pessoas adicionais passaram a ser beneficiadas. O programa inclui atendimento de saúde e educação para os mais necessitados.

Mas o México ainda investe bem menos nos programas sociais do que o Brasil. Em 2009, o governo mexicano destinou 11,2 por cento do PIB para os programas sociais, contra 27 por cento no Brasil, segundo a Cepal (agência da ONU para estudos econômicos da América Latina e Caribe).

Enquanto no México a pobreza avança, o Brasil conseguiu tirar cerca de 40 milhões de pessoas da pobreza durante os oito anos de governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Favorito para a sucessão de Calderón, Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), diz que o México não está criando empregos suficientes. Ele propõe que todos os mexicanos tenham direitos a benefícios de saúde, seguridade social e seguro-desemprego.

Mas as propostas de Peña Nieto seriam custosas, e talvez ele não tenha maioria no Congresso.

"Custa muito dinheiro: 4 ou 5, talvez 6 por cento do PIB, e a única forma de financiar isso é com uma grande reforma tributária", disse Jorge Castañeda, que foi chanceler do paisnno governo de Vicente Fox, do Partido Ação Nacional, ao qual também pertence Calderón.

(Reportagem adicional de Noe Torres)

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