Avó da Praça de Maio soube em SP que tinha um neto

Revelação foi feita a Estela de Carlotto em 1979, durante reunião no Brasil, por uma companheira de cela da filha dela, Laura

Fernanda Simas, Fausto Macedo, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2014 | 02h04

A descoberta de Guido, neto da presidente e uma das fundadoras da associação argentina Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, encerra uma busca que começou em 1979, quando a líder argentina participou de um encontro em São Paulo e descobriu que tinha um neto. Ontem, pela primeira vez, Estela e Guido se encontraram, um dia depois da confirmação de que são avó e neto (mais informações nesta página).

Na época, durante visita à sede do Clamor - grupo de advogados, religiosos e uma jornalista que se dedicava à busca de pistas de crianças sequestradas ou geradas nos porões da ditadura argentina, uruguaia e chilena -, na Cúria Metropolitana, Estela conheceu Luiz Córdoba e a mulher dele, Alcira Ríos, advogada e ex-companheira de cela de Laura de Carlotto, mãe de Guido.

"Quando estávamos exilados no Brasil, um exilado nos disse que as Avós da Praça de Maio estavam lá procurando sobreviventes dos centros clandestinos para saber se conheceram grávidas. E dissemos que podíamos contar tudo o que sabíamos", explicou Alcira ao Estado.

Alcira foi presa em 28 de julho de 1978 no centro clandestino La Cacha, onde Laura estava havia dez meses. "Estivemos juntas, mas não podíamos dizer nossos verdadeiros nomes em razão das torturas. Ela contou para mim e outras companheiras que havia tido um filho dois meses antes da nossa chegada."

Segundo a ex-presa política, Laura disse ter sido levada a um hospital militar para ter o filho. "Ela ficou amarrada a uma cama. Permitiram que ficasse com o filho por cinco horas e depois levaram a criança. Isso ela me contou e até aí eu a conhecia como Rita, seu nome de guerra."

Pouco tempo depois, contou Alcira, Laura teve uma grande crise nervosa. Chorava e gritava "estou aqui e tenho um filho que não sei onde está, não sei como está minha mãe", então os militares permitiram que outra prisioneira fosse até a cela de Laura para tentar acalmá-la.

"Depois, três militares do alto escalão da Marinha vieram e levaram Laura para uma sala de tortura e a interrogaram". Alcira explicou que após esse interrogatório, os militares disseram que levariam Laura até a Escola de Mecânica da Marinha (Esma) para um novo interrogatório e em seguida a mandariam para casa, para reunir-se com a mãe e o filho. "A gente acreditou nisso."

Lembrança. Antes de ir embora, Laura pediu uma recordação de cada uma das prisioneiras que ficaram com ela, cena que Alcira não esqueceu. "Eu lhe disse 'que posso te dar se me tiraram tudo, até minhas roupas?'. Quando falei isso, percebi que a única coisa que tinha deixado comigo era minha roupa íntima. Eu lhe dei meu corpete preto e ela saiu usando."

A advogada não teve mais notícias da colega de prisão até o encontro em São Paulo.

Quando a ex-presa política começou a contar para as Avós da Praça de Maio sobre as grávidas que conhecera na prisão e o que sabia de cada uma, citou Rita.

"Contamos a elas que lá estava uma moça que usava o nome Rita. Nesse momento, Estela de Carlotto disse 'Rita era o nome de guerra de minha filha', mas então lhe disse que não sabia se eram a mesma pessoa porque libertaram a garota quando estávamos presas e disseram que ela ia para casa", explicou a advogada.

Estela então pegou uma foto da filha e mostrou para Alcira, que reconheceu a companheira. "Quando vimos a foto, ficamos tristes porque então nos demos conta de que a haviam matado naquela noite. Tiraram ela do campo e a mataram. Foi um momento muito difícil, mas então meu marido disse a Estela 'agora sabe que precisa procurar um neto'."

Informações. Guido Carlotto é o 114.º neto encontrado, mas ainda restam cerca de 400 crianças desaparecidas nas mesmas circunstâncias para serem identificadas. Jan Rocha, a jornalista que atuava no Clamor conta, com euforia, que o grupo se transformou em um vigoroso centro de informações sobre crianças procuradas.

O grupo foi criado em 1978 por Luiz Eduardo Greenhalgh, após encontros secretos com um casal de argentinos na Rua Turiaçu, em Perdizes, e o pastor Jaime Wright, de quem vendou os olhos com chumaços de algodão - o apartamento onde estavam aqueles argentinos era um 'aparelho', por isso ninguém mais deveria saber como chegar até lá.

"Foi um choque", contou Greenhalgh ao lembrar da descoberta de Estela.

Na criação do Clamor, empolgado com a ideia de formação de um banco de dados dos filhos desaparecidos, o pastor sugeriu que o grupo procurasse a proteção do cardeal arcebispo de São Paulo. "Precisamos do guarda-chuva de d. Paulo Evaristo Arns."

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