RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADÃO
RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADÃO

Blecautes por frio acirram disputa argentina

Cortes de luz nos picos de consumo em partes de Buenos Aires e entorno, a menos de 5ºC, terminam em bate-boca político

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

27 de junho de 2015 | 22h26

Cega há três anos, Raquel sofre cada vez que o marido, Sereno, perde a calma e grita “faltou luz”. Foram cinco dias seguidos assim na primeira onda de frio, semana passada, quando a temperatura chegou a 2ºC e houve picos de consumo. Diabética, aos 65 anos, ela é a mais prejudicada na família com a mudança na rotina, porque depende de insulina e alimentação especial. 

Raquel vive também com a filha e o neto no bairro de Balvanera, centro de Buenos Aires, em um casarão velho cujas peças foram divididas com outras três famílias. Entre os vizinhos, que bloqueavam a Avenida Córdoba com pneus em chamas, havia quem culpasse Cristina Kirchner por não investir em infraestrutura. E havia culpasse a tudo, menos a presidente. 

“É um plano para prejudicá-la”, dizia Alexander Gómez, de 23 anos, apaixonado pelo Boca Juniors e por Cristina. Ele organizou o primeiro bloqueio na avenida, uma das principais da cidade, há uma semana – houve dezenas de piquetes. Era Dia dos Pais na Argentina e a carne do churrasco foi para o lixo. Isso irrita um argentino.

“Fiz uma compra de 2.500 pesos (R$ 860), para aproveitar o desconto de 20% do dia. Perdi tudo”, lembra Gómez, um atendente de uma loja de conveniência capaz de ligar alto-falantes no celular simples, com vidro quebrado, para ouvir cada cadeial nacional de Cristina – 26 no ano – a todo volume diante de clientes do posto de gasolina.

Gómez é do tipo que se irrita quando alguém diz que as sete lanternas e duas luzes de emergência que comprou deviam ser postas na conta de Cristina. No Twitter, as ironias mais comuns nos últimos dias iam na linha “Alemanha às escuras” ou “Alemanha cada vez pior”. Uma referência a um discurso há duas semanas, em que a presidente disse haver mais pobres no país europeu do que no seu. Um escreveu que “a energia do populismo tinha acabado”. 

Dono de uma loja que vende tinta para impressoras a 30 metros do casarão da Rua Aguero, Guillermo Vélez culpa a falta de estrutura, e por consequência o kirchnerismo. Ele comprou um gerador por US$ 1,4 mil para conservar “o ar que alimenta a loja”, a internet. “Se não comprasse, teria o prejuízo de oito geradores por dia”, calcula. 

Secretário de Energia do governo de Raúl Alfonsín, entre 1988 e 1989, Jorge Lapeña também responsabiliza o governo. “A energia é subsidiada, 25% do que custa nos países vizinhos. As empresas não têm margem para fazer consertos. Não temos ameaça de grande apagão, mas qualquer pico de consumo, no verão ou inverno, com o ar condicionado, provoca cortes em regiões pontuais, onde os cabos não aguentam. Daí esse mal humor generalizado”, avalia.

Gómez discorda. “São as concessionárias, que foram multadas pelos cortes do verão, e antes da eleição de outubro querem dar o troco”, afirma, reclamando do equivalente a R$ 40 já gasto em velas. “Pior é o caso da vizinha cega, que não vê, coitada, e perdeu toda a insulina.” 

Depois de Raquel perder o remédio, por falta de refrigeração, Sereno pediu socorro ao verdureiro, dono do maior freezer das redondezas. Ele trabalha do outro lado da avenida, onde a corrente é estável. “Deixei toda insulina com ele. De manhã, bem cedinho, caminho até lá, pego uma ampola, volto e aplico”, diz o aposentado de 75 anos, também kirchnerista. Ele aproveita e leva legumes e verduras, que Raquel come antes de cada refeição. 

A família de Sereno tem calefação a gás, que não chega a toda casa. “Tenho medo de colocar em nosso quarto”, justifica. Ele e Raquel recorrem a cobertores. Na mesa de cabeceira, há uma lanterna pequena. Ele conta também com duas luzes de emergência. Se há corte, iluminam cerca de um dia. Se o blecaute dura dias, a filha as carrega no trabalho e devolve à noite.

No auge da onda de frio, amenizada na sexta-feira, Sereno ia três vezes por dia ao supermercado. Uma por refeição. “Sem geladeira, precisamos decidir antes o que comer e comprar o mínimo. E com a inflação, gastamos muito mais se não fazemos uma compra grande”, explica. Na Argentina, uma forma comum de amenizar a alto dos preços – 15% por ano segundo o governo, 25% conforme consultorias – é fazer grandes compras nos dias em que bancos ou lojas dão descontos de 20% a 30%.

Sereno habituou-se a usar o despertador do relógio de pulso. “Toda manhã, ao ir ao banheiro, é uma tensão. Se grito minha mulher já sabe. Fico furioso”, diz Sereno, certo de que não será a última vez. Na terça-feira, a mínima deve voltar aos 5.ºC e o inverno só termina em 23 de setembro, a 32 dias da eleição.

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