Bolívia pode rachar, mas ninguém se beneficiaria, diz analista

Professor afirma que cabe a Evo e ao Brasil não permitirem divisão do país, que vive delicada crise política

Luiz Raatz, do estadao.com.br,

17 de setembro de 2008 | 17h21

A escalada de violência na Bolívia, que última semana deixou ao menos 15 mortos, é a face mais visível de uma crescente tensão que toma o país desde a posse de Evo Morales, eleito em 2005 o primeiro indígena a presidir a nação mais pobre da América do Sul. Segundo o doutor em Ciências Políticas pela Unicamp José Alexandre Hage, professor das Faculdades Trevisan, a possibilidade de racha no país vizinho é real, mas não interessa a ninguém - nem ao Brasil, nem aos vizinhos sul-americanos, e nem mesmo aos Estados Unidos.   Veja também: Ouça a entrevista com o prof. José Alexandre Hage  Governo e oposição boliviana assinam trégua Lula: Brasil venderá caminhões e ônibus para Bolívia Bolívia tem histórico de golpes e crises  Entenda os protestos da oposição na Bolívia  Entenda o que é a Unasul  Enviada especial fala sobre trégua na Bolívia  Enviada do 'Estado' mostra fim dos bloqueios Imagens das manifestações     Moradores das planícies do leste do país, mais rico e habitados pela elite composta por imigrantes e descendentes de espanhóis, se rebelaram contra o aumento de impostos destinados a idosos indígenas pobres moradores dos Andes. As províncias da chamada 'meia-lua' - Pando, Santa Cruz, Tarija, Chuquisaca e Beni - também protestam por maior autonomia.   "A possibilidade de racha é real. O que vai determinar se isso vai acontecer é a capacidade do governo Evo Morales e do Brasil de não permitir que isso ocorra", diz o professor.   O Brasil importa grandes quantidades de gás natural da Bolívia e tem um papel geopolítico importante no cenário regional da América do Sul. Na segunda-feira, diversos líderes sul-americanos se reuniram em Santiago, no Chile, para manifestar apoio á unidade territorial boliviana e ao presidente Evo Morales. Os presidentes da região também rechaçaram qualquer tentativa de 'golpe civil' no país.   Além disso, por sua localização estratégica no centro da América do Sul a Bolívia é um ponto de transição importante entre os Andes e o Pacífico a oeste, a Amazônia a norte e leste e o pantanal e os pampas, a sudeste e sul.   Segundo Hage, a recente crise política boliviana difere de outros momentos críticos da conturbada história do país por trazer consigo um elemento étnico. De acordo com o professor, a elite do país está mais organizada e com um discurso racial e cultural. "A maioria da população da meia lua se vê como uma região estranha em um país majoritariamente índio", explica.   Ainda de acordo com o analista, o futuro da crise depende do rumo que a violência vai tomar. "A violência na Bolívia é uma constante e vai determinar o andamento do diálogo. Se Evo responder com mais violência, ele vai passar por um desgaste político, mas vai manter o controle sobre essa região instável. Se ele preferir o diálogo, pode sofrer um desgaste interno porque a oposição está bastante forte."   Nas últimas semanas, o presidente boliviano advertiu seus opositores que 'paciência havia limites', mas ordenou que o exército protegesse apenas os prédios públicos e os ativos petrolíferos e de gás. Ontem, o governo prendeu o governador de Pando, Leopoldo Fernández, sob a acusação de que ele permitiu as mortes de camponeses na província, das quais opositores ao governo são também suspeitos.

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