Bolivianos cruzam a fronteira e se refugiam no Acre

Entre os que buscam refúgio no Brasil estão senador da oposição e a presidente do Comitê Cívico de Pando

Agências internacionais,

17 de setembro de 2008 | 08h14

Pelo menos 100 bolivianos fugiram do Departamento de Pando, na fronteira com o Acre, para se refugiarem na cidade de Brasiléia, já em território brasileiro, onde pediram às autoridades locais para serem alojadas em abrigos, informou a imprensa local na noite de terça-feira, 16. Entre os quase mil bolivianos que fugiram desde quinta-feira passada, está Paulo Bravo, senador do departamento autonomista de Pando pelo partido Podemos (de oposição a Evo Morales), e a presidente do Comitê Cívico de Pando, a opositora Ana Melena.   Veja também: Governador opositor anuncia pré-acordo Bolívia tem histórico de golpes e crises  Entenda os protestos da oposição na Bolívia  Entenda o que é a Unasul  Enviada do 'Estado' mostra fim dos bloqueios Imagens das manifestações     O exôdo teve início após o massacre de pelo menos 18 camponeses que faziam um protesto pró-Evo na semana passada. Os bolivianos cruzaram a fronteira de Cobija, onde na terça-feira foi detido o governador de Pando, Leopoldo Fernández, acusado de "genocídio" por sua suposta responsabilidade na morte de pelo menos 15 pessoas.   Emissoras de La Paz mostraram imagens de vários bolivianos pedindo às autoridades de Brasiléia, no Acre, um lugar onde pudessem passar a noite, já que não queriam permanecer na Bolívia por medo de serem detidas pelos militares que ocupam Cobija desde que, na semana passada, foi decretado estado de sítio na região. Segundo o canal Unitel, um dos bolivianos que está em Brasiléia é a presidente do Comitê Cívico de Pando, a opositora Ana Melena.   O defensor público boliviano, Waldo Albarracín, visitou o grupo e pediu às autoridades de seu país garantias para que o grupo possa voltar para casa em segurança. Um dos bolivianos disse à Unitel que estava sendo feita uma lista de todos que ganhariam abrigo em asilos e no Corpo de Bombeiros de Brasiléia e da vizinha Epitaciolândia, ambas na fronteira com Cobija.   O fluxo de famílias recém-chegadas ao Brasil ameaça sobrecarregar os serviços públicos tanto de Brasiléia quanto da vizinha Epitaciolândia e já colocou em alerta o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), que manteve reuniões com o Itamaraty e Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) na tarde de terça, em Brasília. "Se esse fluxo continuar, vai sobrecarregar a prefeitura", disse o vice-prefeito de Brasiléia, Antônio Pacífico (PSB). "Muitos se hospedam em casa de amigos, mas não sabemos onde isso vai parar."   Do lado brasileiro, os recém-chegados foram recebidos em casas de amigos e parentes, mas alguns buscaram hotéis da cidade. Um grupo de dez bolivianos chegou a acampar próximo do ginásio local, antes de ser transferido pela prefeitura. O representante da Secretaria de Articulação Institucional do Governo do Estado do Acre, José Alvani, foi enviado à cidade e não descartou a necessidade de campanhas públicas de arrecadação de alimentos: "Por enquanto temos prédios públicos que servem de abrigo, colchões e comida, mas, se for o caso, vamos aumentar a ajuda e pedir contribuições."   Os brasileiros que fugiram de Pando nos últimos dias foram acomodados na Casa de Cultura de Brasiléia, mantida pelo Sindicato de Trabalhadores Rurais. Metade dos desabrigados é de crianças. Entre os adultos, a maioria é de mulheres. "Fugi com meu marido e os dois filhos, um de 8 anos e outro de 1 ano e meio", contou Maria Raimunda Silva Abreu, caseira de uma chácara em Estrada Porto Rico, próxima de Cobija, capital do departamento boliviano. "Quando ocorria tiroteio de noite as crianças se agarravam em mim, chamando ?mamãe, mamãe?. Eu tinha a sensação de que ia morrer", conta Maria Raimunda. "Vamos ficar por aqui agora. Não sei até quando."   Para prestar ajuda humanitária aos recém-chegados, a Defesa Civil montou um grupo de trabalho com representantes das prefeituras, sindicatos, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros. O grupo avalia que as famílias que fogem para o Brasil têm medo das ameaças, dos tiroteios e dos bloqueios de estradas, mas poucos chegam feridos ou doentes. "Eu estava agora na ponte da divisa com a Bolívia e posso assegurar que o trânsito de pessoas está completamente liberado", disse o vice-prefeito de Brasiléia.   (Com João Paulo Charleaux, de O Estado de S. Paulo, e Efe)

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