Bolivianos mascam coca em frente à embaixada dos Estados Unidos

Milhares de bolivianos fizeram uma passeata e mascaram folhas de coca na quarta-feira em praças e ruas de La Paz, concentrando-se depois em frente à sede da embaixada norte-americana, numa manifestação de apoio à campanha governamental pela despenalização de usos tradicionais da planta.

REUTERS

26 de janeiro de 2011 | 20h31

A jornada de "acullico" (mastigação da coca com fins energizantes e curativos) foi convocada por sindicatos de cocaleiros e por outras organizações sociais ligadas ao governo do presidente Evo Morales. O ato paralisou por mais de duas horas o centro de La Paz, mas não resultou em incidentes. Houve atividades semelhantes em outras cidades bolivianas.

Faltam cinco dias para que termine uma consulta mundial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a proposta boliviana de retirar o uso tradicional da coca da Convenção de Viena, de 1961, que trata de drogas ilícitas.

Além de ser mastigada, a coca é usada em chás, e é valorizada no combate aos efeitos da altitude e da fome. A planta serve também de matéria-prima para a cocaína, uma droga ilegal no mundo inteiro.

"O 'acullico' não é daninho, na verdade nos ajuda, e é por isso que as culturas indígenas originárias não desaparecemos, as 36 nacionalidades da Bolívia", disse Adolfo Chávez, líder da Central Indígena do Oriente Boliviano, em um discurso em frente à embaixada dos EUA, onde há um forte esquema de segurança.

EUA e Bolívia têm relações diplomáticas turbulentas, e há dois anos a embaixada está sem embaixador.

Adolfo Chávez também criticou a suposta intenção do governo norte-americano, revelada pela imprensa local, de se opor formalmente à proposta boliviana, o que obrigaria a ONU a realizar uma conferência mundial para debater o assunto.

Se nenhum país apresentar uma objeção até 31 de janeiro, a proposta da Bolívia --terceiro maior produtor mundial de coca, atrás de Colômbia e Peru-- será automaticamente aprovada.

"Se as grandes potências pensam em fazer desaparecer as culturas originárias, se equivocam, precisariam fazer a erradicação da coca e dos povos indígenas", acrescentou Chávez.

Além dos gritos de protesto, a manifestação contou também com danças folclóricas, com destaque para os grupos afro-bolivianos da região cocaleira de Yungas, no norte do Departamento de La Paz.

"É preciso pôr na cadeia essas pessoas que fazem cocaína, mas não nos podem proibir de cultivarmos para o bem esta folha, (não podem exigir) que deixemos de 'pijchear' (mastigar)", disse a cocaleira Martha Mamani.

Seu colega Dionisio Choque, da região de Cochabamba (centro do país), insistiu em explicar que "a coca não é cocaína, não queremos que seja mal vista no exterior, e mastigamos hoje para que ela seja respeitada."

(Reportagem de Claudia Soruco)

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