Dida Sampaio/AE
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Brasil e EUA não devem aceitar golpe em Honduras, diz Lula

Após o retorno de Zelaya, presidente diz em NY que países não cederão ao governo interino de Honduras

Nalu Fernandes, Agência Estado

22 de setembro de 2009 | 03h01

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma defesa da democracia existente no Brasil ao receber o prêmio Woodrow Wilson, em Nova York, na noite de segunda-feira, 21. Lula diz não ter dúvida de que brasileiros e americanos precisam "cooperar para que possamos garantir que a democracia seja consolidada. Por isso é que Brasil e EUA repudiaram o que aconteceu em Honduras. Nos não podemos aceitar mais golpe militar. Não temos o direito de aceitar que alguém se ache no direito de tirar uma pessoa eleita democraticamente", asseverou. "A posição do Brasil e dos EUA juntos é importante porque fortalece a democracia", acrescentou.

 

O "Brasil é país de instituições sólidas e democráticas", discursou. Lula ainda deu o exemplo do governo de esquerda em El Salvador para citar uma ocorrência que classificou como "responsável" - a vitória nas eleições por meio de um processo democrático. Na região, o presidente enumerou a "construção da Unasul, a construção do conselho de defesa sul-americana e o combate ao narcotráfico na Unasul". "O estabelecimento de uma política de convivência democrática é o sacrifício que temos de fazer", disse. A região, afirmou, é "pacifica, tranquila e democrática".

 

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O presidente diz que nunca teve problema para aprovar nada que fosse importante no Congresso brasileiro. "Aqui o Obama está esperando um bocado de meses para aprovar o embaixador (dos EUA para o) Brasil e ainda não conseguiu. Embaixador eu indico com mais facilidade. Mas isto é democracia. É assim mesmo que as coisas funcionam", ponderou.

 

Ao agradecer pelo recebimento do prêmio, Lula citou que, em dezembro de 2002, teve um encontro com o ex-presidente George W. Bush, pouco mais de um ano após o atentado terrorista ao World Trade Center. Ele lembra que o norte-americano estava "obsessivo" com o ataque e a necessidade de fazer a guerra contra o Iraque. Lula afirmou que compreendia o presidente dos EUA, mas que enfatizou que tinha outra guerra. "Eu dizia que a minha guerra é outra, é contra a fome. Temos 44 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza", relembrou. "Eu achava que Bush ia ficar bravo comigo, pois não queria aderir à guerra, mas ficamos amigos. Está certo que não conseguimos avançar na reforma da ONU, ou na rodada de Doha", lamentou.

 

O governo de Micheletti é considerado ilegítimo por praticamente todos os países do mundo. Os EUA, a União Europeia e entidades internacionais congelaram, desde o golpe, cerca de US$ 300 milhões da ajuda essencial para que Honduras equilibre seu orçamento. A comunidade internacional exige a devolução do poder ao presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya, e adverte que não aceitará o resultado das eleições presidenciais de novembro, caso elas sejam conduzidas pelo governo de facto. Micheletti e apoiadores rejeitam qualquer acordo político que implique devolver o poder a Zelaya. O líder deposto, por seu lado, disse rejeitar o chamado Acordo de San José, apresentado pelo presidente costa-riquenho, Oscar Arias, que prevê a volta de Zelaya à presidência, mas com poderes limitados.

 

Abrigo na Embaixada brasileira

 

Zelaya - que entrou em rota de colisão com os militares, o Congresso e o Judiciário por causa de sua insistência em promover mudanças na Constituição e de sua proximidade com o presidente venezuelano, Hugo Chávez - evitou dar detalhes sobre como conseguiu retornar clandestinamente a Honduras, mas, segundo fontes próximas a ele, o presidente deposto atravessou a fronteira com a Nicarágua pelas montanhas. Nos últimos dias, Zelaya vinha coordenando a ofensiva diplomática para retomar o poder de um hotel localizado na cidade nicaraguense de Ocotal, perto da fronteira com Honduras.

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, negou que o governo brasileiro soubesse antecipadamente que o presidente deposto procuraria abrigo na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. Insistindo que o País não reconhece o governo de facto hondurenho, o chanceler acrescentou que, por enquanto, a preocupação maior será com a segurança do presidente deposto.

"Eu conversei com o encarregado de negócios (no início da tarde) e ele me disse que Zelaya estava na embaixada", afirmou o ministro - o Brasil havia retirado seu embaixador no país após o golpe. O aval para a entrada de Zelaya foi dado pelo subsecretário-geral da América do Sul do Ministério das Relações Exteriores, Enio Cordeiro. O presidente Lula, que estava no avião indo de Brasília para Nova York, foi avisado imediatamente por Amorim.

Logo após informar o chanceler, o encarregado de negócios, Francisco Catunda, passou o telefone para Zelaya conversar com Amorim. "Dei boas-vindas e perguntei se ele estava bem. Ele me respondeu que sim, mas um pouco cansado por causa da caminhada pelas montanhas." Questionado pelos jornalistas, Amorim voltou atrás e disse não saber se Zelaya foi andando até a embaixada.

O ministro descreveu o ocorrido, afirmando que uma deputada foi à embaixada e disse ao encarregado de negócios que a mulher de Zelaya, Xiomara, gostaria de conversar com ele. Catunda concordou e, ao encontrá-la, recebeu a informação de que o presidente deposto estava nos arredores e queria saber se podia entrar na embaixada. Mais tarde, segundo Amorim, uma comissão de dez pessoas foi autorizada a entrar na sede diplomática.

Amorim disse não se tratar de um asilo político, pois, segundo o ministro, "Zelaya é o presidente democraticamente eleito de Honduras". O chanceler informou aos jornalistas que o governo pediu à Organização dos Estados Americanos (OEA) e aos EUA que entrem em contato com o governo de facto de Honduras para garantir a segurança. "Nosso pessoal na embaixada não será afetado", afirmou. "Esperamos que não haja violência", acrescentou o chanceler. Para finalizar, Amorim disse ainda não acreditar que o governo de facto vá tomar uma medida flagrante contra o direito internacional.

"A presença dele em Honduras é um fato novo. Nós ainda não planejamos nada", afirmou o chanceler brasileiro. Amorim foi insistente em defender a volta de Zelaya e acrescentou que repudia o governo de facto de Roberto.

 

(Com Gustavo Chacra, de O Estado de S. Paulo)

 

Texto atualizado às 7h45.

 

 

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