Brasil se dispôs a mediar relação entre EUA e Venezuela, diz Wikileaks

Diplomatas brasileiros teriam pedido mais de uma vez que autoridades americanas fossem a Caracas

Denise Chrispim Marin, correspondente,

20 de dezembro de 2010 | 20h11

WASHINGTON- O governo brasileiro dispôs-se a mediar a aproximação direta entre os Estados Unidos e a Venezuela, segundo telegramas da embaixada americana em Brasília vazados nesta segunda-feira, 20, pelo WikiLeaks.

 

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Em conversas com diplomatas e autoridades do governo americano, o assessor da presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, insistiu nessa via e estimulou o atual subsecretário de Estado para América Latina e Caribe, Arturo Valenzuela, a embarcar a Caracas para conversar com o presidente venezuelano, Hugo Chávez.

 

"Sem esse movimento, Garcia disse, 'Chávez responderá a qualquer um (por exemplo, a autoridades do governo americano de qualquer posição). Ele não tem senso de proporção'", descreve o telegrama de 29 de dezembro de 2009, ao relatar a conversa entre o assessor presidencial e Valenzuela.

 

O telegrama menciona que, três meses antes, Marco Aurélio havia insistido ao general James Jones, então conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, para fazer a mesma visita. A aproximação EUA-Venezuela havia sido defendida também a Jones pelo chanceler Celso Amorim, que argumentara sobre os benefícios dessa relação direta para a oposição no país vizinho.

 

"Amorim sugeriu que um bom diálogo entre ambos os governos teria também impacto na situação doméstica da Venezuela, porque boa parte da oposição a Chávez têm laços com os EUA", diz o telegrama.

 

Neste ano, quando assumiu o cargo de embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon afirmou a Marco Aurélio que os problemas na relação Washington-Caracas eram "crescentemente intratáveis" e que as questões internas do país haviam empurrado Chávez a uma receita de "mais autoritarismo e repressão".

 

O assessor culpou a falta de interlocutores. "Garcia perguntou se os EUA estavam ainda interessados no diálogo. O embaixador disse que sim. Garcia ficou visivelmente intrigado, indicando que o Brasil poderia prestar assistência nessa área", diz telegrama escrito em 19 de fevereiro passado.

 

Companheiros

 

Oito meses antes da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Teerã, em maio, o chanceler Amorim afirmara a James Jones que Brasil e Irã "não eram companheiros". Mas, havia um canal entre os dois países e uma relação "não profunda, porém pragmática".

 

Conforme o telegrama de 4 de setembro do ano passado, o chanceler comentou ao general a "excelente" iniciativa dos EUA de abrir-se ao diálogo com Teerã na área nuclear. O resultado foi um acordo firmado em outubro de 2009, nunca honrado pelo governo iraniano.

 

Sobre outro companheiro, Cuba, Marco Aurélio expôs a Jones sua avaliação de que o país seguirá um caminho similar ao do Vietnã sob a condução de Raúl Castro. O líder cubano foi descrito como "mais pragmático e menos ideológico" que seu irmão, Fidel Castro.

 

O assessor de Lula ainda insistiu que o investimento brasileiro na construção do porto de Mariel, em Cuba, somente terá sentido se o comércio com os EUA for retomado. "Dado que os EUA têm uma relação com o Vietnã, Garcia disse, não há razão para não terem uma relação similar com Cuba", relata o telegrama.

 

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