Brasil vai defender acordo com França, caso questionado

O ministro das Relações Exteriores afirmou que 'não há nenhum problema em se discutir acordo Brasil e França'

Denise Chrispim Marin, de O Estado de S. Paulo e Efe,

24 de agosto de 2009 | 18h30

O Brasil defende que seu acordo militar com a França não tem semelhança com o compromisso fechado entre a Colômbia e os Estados Unidos, que prevê a presença de forças americanas em sete bases colombianas por dez anos. Com essa máxima, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá rebater possíveis críticas do presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, durante o debate aberto sobre os temas de segurança da América do Sul que ocorrerá na sexta-feira em Bariloche, Argentina, durante a reunião extraordinária de cúpula da União de Nações Sul-americanas (Unasul).

 

"Não há nenhum problema em se discutir o acordo Brasil e França. Se ele (Uribe) tem o desejo de saber, então, ele vai saber, pois não temos nada a esconder", afirmou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ao final de encontro com o chanceler do Equador, Falder Falconí, ocorrido nesta segunda-feira em Brasília.

 

Em visita ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no início de agosto, Uribe detalhou o acordo EUA/Colômbia e assegurou que, se fosse convocado pela Unasul para defendê-lo, exigiria explicações sobre o compromisso na área de defesa firmado entre o Brasil e a França, em dezembro de 2008, e sobre a cooperação militar entre a Venezuela e o Irã.

 

No encontro da Unasul em Quito, em 10 de agosto, os líderes presentes concordaram com a agenda aberta da reunião de Bariloche, que abarcaria também o combate ao tráfico de drogas e de armas - temas que permitem o reforço das acusações do governo colombiano de que a Venezuela e o Equador apoiam as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Mas Uribe não estava presente.

 

Ontem, no Itamaraty, esse compromisso foi reafirmado por Falconí, que afirmou ter recebido a confirmação da chancelaria colombiana de que Uribe irá a Bariloche. Como meio de tranquilizar a Colômbia sobre a orientação não acusatória desse encontro, o chanceler equatoriano ressaltou que "ninguém se sentará no banco dos réus". "Não há nenhum tema vetado. Todos os temas de segurança tem de ser tratados pelos presidentes", afirmou Falconí.

 

O próprio Amorim considerou necessário que nenhum tópico seja varrido para "debaixo do tapete". Entretanto, indicou que o acordo EUA/Colômbia deva estar no centro das discussões da Unasul, neste momento, porque a "presença de uma força estrangeira na América do Sul pode trazer, para a região, problemas que não são seus".

 

Conforme assinalou, essa é a principal preocupação do Brasil. O tema poderia ser discutido novamente em uma reunião da Unasul com o presidente americano, Barack Obama, que foi convidado por Lula. No entanto, os Estados Unidos não enviarão representante para a reunião. Segundo um porta-voz do Departamento de Estado do país, os Estados Unidos "não são membros da Unasul" e "não têm planos para enviar nenhum representante" do governo para a reunião.

 

Segundo o chanceler, os países da Unasul não devem imaginar que, na reunião de Bariloche, será resolvido completamente o atual impasse porque não há certeza de que o governo Uribe estará preparado para fornecer "garantias jurídicas" de que as forças americanas não invadirão o território dos países vizinhos.

 

Para Amorim, se as declarações dadas por autoridades colombianas fossem transcritas para uma nota diplomática, a Unasul já teria a garantia que exige. "Pedir garantia não é desconfiar da palavra de ninguém. É um procedimento normal nas relações internacionais", observou.

 

Honduras

 

Amorim disse ainda que o governo de facto de Honduras condena o país a "um isolamento que não merece", se não atender ao apelo e às pressões da comunidade internacional em favor do retorno do presidente Manuel Zelaya a suas funções.

 

Amorim acrescentou que espera que a missão de chanceleres de países da Organização dos Estados Americanos (OEA) tenha sucesso em sua tarefa de convencer o governo de facto.

 

Armas

 

O ministro das Relações Exteriores colombiano, Jaime Bermúdez, afirmou que a Colômbia quer discutir a compra de armas e os acordos de cooperação com países de fora da América do Sul na próxima cúpula da União de Nações Sul-americanas (Unasul).

 

"Temos o interesse de que a região discuta abertamente a compra de armas de terceiros países, o terrorismo e o narcotráfico na região, os acordos de cooperação com terceiros países", disse Bermúdez após uma reunião em Santiago com seu colega chileno, Mariano Fernández.

 

Bermúdez deve comparecer junto com o presidente colombiano, Álvaro Uribe, à cúpula extraordinária da Unasul, que será realizada na próxima sexta-feira na cidade argentina de Bariloche para tratar do acordo militar entre Colômbia e Estados Unidos.

 

O chanceler colombiano expressou seu interesse em "discutir todos os assuntos" nessa reunião e convidou todos os países a também estarem dispostos a participar de uma "discussão aberta, franca e concreta".

 

Bermúdez assegurou que não conversou com Fernández sobre o acordo militar entre Colômbia e EUA, pelo qual tropas americanas poderão utilizar sete bases militares colombianas.

 

O ministro colombiano visitou o Chile no último dia 5 como parte da viagem por sete países sul-americanos, entre eles o Brasil, que serviu para falar sobre o acordo com governantes da região.

 

À época, a presidente chilena, Michelle Bachelet, expressou o "respeito" do Chile em relação ao que considerou como "uma decisão soberana da Colômbia".

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