Brasileiros são retidos por manifestantes na Bolívia

Grupo estava na região do Salar do Uyuni, próximo à fronteira com o Chile, quando foi abordado

Evandro Fadel, de O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 17h19

Pelo menos quatro brasileiros estão retidos na estrada que dá acesso ao Salar de Uyuni, na Bolívia. O deserto de sal é uma das principais atrações turísticas do país. Há uma semana, porém, centenas de moradores da região começaram a ocupar as vias locais para protestar contra a "ação predatória" da mineradora San Cristóbal, controlada por uma empresa japonesa. Segundo a rede britânica BBC, até 90 turistas de diversas nacionalidades podem estar retidos no local.

 

Os quatro brasileiros, moradores de Curitiba, estão entre os cerca de 90 turistas que foram retidos por manifestantes no sudoeste da Bolívia, próximo à divisa com o Chile. Eles viajaram ao país no sábado e pretendiam conhecer o deserto de sal, quando foram impedidos de continuar a viagem.

 

Os manifestantes exigem a presença do presidente da Bolívia, Evo Morales, para negociar e ameaçam invadir instalações da empresa e queimar um posto de fronteira em Abaroa, na divisa com o Chile. Eles verteram seis contêineres com 22 toneladas cada de um concentrado de chumbo, prata e zinco. Os contêineres, pertencentes à mineradora, valiam cerca de US$ 15.400, segundo seus executivos.

 

Regina Ruiz, a mãe de Diogo Ruiz, de 24 anos, um dos brasileiros retidos na Bolívia, ficou sabendo da situação do filho depois que sua filha, que mora nos Estados Unidos, recebeu uma mensagem no telefone celular, enviada pelo pai, o comerciante Erotides de Arruda, de 56 anos, que também está entre os reféns. Além deles, fazem parte do grupo dois amigos de Ruiz, os irmãos Marcos, de 25 anos, e Bruno Tosin, de 23 anos.

 

Na mensagem, enviada por volta das 18 horas de terça-feira, 20, Erotides informou que o grupo foi surpreendido pelo "protesto de trabalhadores de uma mineradora reivindicando melhores condições de trabalho" e que "eles pegaram no meio do deserto todas as caminhonetes que iam com turistas para o Salar de Uyuni". O comerciante informou que todos estavam sendo bem tratados.

 

De acordo com Regina, que está separada de Erotides, a mensagem indica que há cerca de 90 turistas de várias partes do mundo, entre eles alemães, norte-americanos, franceses e israelenses, retidos pelos trabalhadores, embora não soubesse dizer se havia mais brasileiros, além dos quatro paranaenses. "A gente não tem mais notícias", lamentou. "A única informação que recebemos é de que estão sequestrados, pedindo a intervenção do governo, que o presidente da Bolívia vá até lá." Segundo ela, houve um contato com o Itamaraty que informou estar a Embaixada na Bolívia procurando tomar providências, mas havia dificuldades em razão do difícil acesso para o local.

 

Um dos sobrinhos de Regina, Ricardo, disse, nesta quarta-feira, 21, à tarde, que a atual mulher do comerciante entrou em contato com a companhia responsável pela excursão, na Bolívia, e que a companhia tentou acalmar a todos, garantindo que a situação está sob controle. O grupo havia saído em viagem de férias no sábado, em uma excursão que terminaria na sexta-feira, 23. Eles estavam no meio do passeio, que previa uma passagem pelo Salar de Uyuni, a maior planície salgada do mundo, onde estão, entre outras, as cidades de Potosí e Uyuni. O episódio, porém, não está sendo tratado como sequestro pelo Ministério de Relações Exteriores brasileiro.

 

A mina de San Cristóbal, na região de Potosí, é propriedade da japonesa Sumitomo. Ela produz cerca de 1.300 toneladas de mineral de zinco e 300 toneladas de chumbo por dia, que exporta para o Japão, a Coreia do Sul e a Europa. A acusação que pesa contra seus controladores, segundo o jornal local El Potosí é a de saque de recursos naturais e uso indevido de 600 litros por segundo de água subterrânea, usados no processamento dos minérios.

 

Um estudo do governo boliviano publicado pelo jornal La Razón, de La Paz, confirma que as atividades da companhia estão prejudicando as reservas de água da região. A San Cristóbal, porém, alega que a água que utiliza em seu processo produtivo está a uma grande profundidade da superfície do solo e tem um alto grau de salinidade e muitos sedimentos. "Se trata de uma água de qualidade muito ruim e imprópria para o consumo humano ou animal", diz um comunicado da empresa. O salar possui cerca de 12 mil quilômetros quadrados, a mais de 3,6 mil metros de altitude. Aproximadamente 50 mineradoras exploram as salinas da região.

 

A população da região protesta contra a atividade, que segundo a comissão organizada para negociar com as autoridades, estaria "saqueando" os recursos naturais da região. Em especial, existe uma insatisfação com o uso de água pela empresa, em uma região onde grande parte da população não tem acesso aos recursos hídricos.

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