Câmara aprova Venezuela no Mercosul; projeto vai ao Senado

Governistas conseguem maioria para aprovar inclusão de Hugo Chávez no bloco de países sul-americanos

Luciana Nunes Leal e Denise Madueño, O Estado de S. Paulo

18 de dezembro de 2008 | 07h31

Os governistas conseguiram aprovar na noite de quarta-feira, 17, no plenário da Câmara, a inclusão da Venezuela no Mercosul, depois de uma longa polêmica com o PSDB, que rejeitava a proposta por considerar o presidente venezuelano, Hugo Chávez, autoritário e antidemocrático. Votaram a favor da adesão 265 deputados, e 61 foram contrários. Houve seis abstenções.   Veja também: Cúpula revela nova ordem regional  Lula cede e aumenta tom contra EUA no último dia de cúpula Lula a jornalistas: não tirem o sapato   O projeto vai agora ao Senado. Os deputados aliados atenderam a um pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, interessado em anunciar a aprovação ainda durante a Cúpula da América Latina e Caribe, que se realiza na Bahia. O projeto enviado pelo governo Lula, em fevereiro de 2007, demorou ainda mais a ser aprovado por causa do insulto de Chávez ao Parlamento brasileiro, que desagradou parlamentares de todas as tendências.   Em junho de 2007, Chávez disse que o Congresso brasileiro é "papagaio dos Estados Unidos". Era uma resposta à moção aprovada no Senado que pedia a reabertura da RCTV, emissora privada que não teve a renovação autorizada pelo presidente venezuelano. No mês seguinte, Chávez chegou a dar um ultimato, dizendo que deixaria a condição de país associado ao bloco se o Parlamento brasileiro não votasse a adesão definitiva. Em novembro do mesmo ano, o projeto foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, depois de mais de cinco horas de discussão.   Diante dos discursos oposicionistas contra a inclusão da Venezuela, os governistas argumentaram que se tratava de interesse comercial e não de uma discussão política sobre o governo Chávez. "Não podemos fazer crivo ideológico. A integração entre países é de pluralidade e isso não significa concordância com o regime político do país", sustentou o petista José Genoino (SP).   O tucano Antônio Carlos Pannunzio (SP) sustentou que a Venezuela não cumpriu a totalidade das exigências para que um país seja integrante efetivo do bloco. O deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP) reiterou a posição contrária e afirmou que a inclusão da Venezuela poderia dificultar acordos bilaterais do Brasil. "O Mercosul já está em uma certa crise, e a entrada da Venezuela só vai agravar, vai dificultar as relações do Brasil com parceiros tradicionais", discursou Madeira.   A votação criou um atrito entre o PSDB e o DEM, parceiros na oposição ao governo. O PSDB acusou os democratas de negociarem a votação do acordo internacional em troca da votação, ainda ontem, da indicação do ex-senador José Jorge (DEM-PE) para o Tribunal de Contas da União (TCU). Os tucanos ficaram sozinhos na tentativa de barrar a votação da entrada da Venezuela no Mercosul. O líder do DEM, Antonio Carlos Magalhães Neto (BA), disse que o partido é contra o projeto, mas liberou a bancada a votar como quisesse, citando casos de parlamentares de Roraima favoráveis à adesão da Venezuela.   "Brasil não é único líder"   O presidente venezuelano, Hugo Chávez, disse que o Brasil não é o único país a exercer "uma liderança importante na América Latina". "Trata-se de um conjunto de lideranças", disse Chávez, quando questionado sobre a influência do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, na região. "Em vez de uma liderança, para o bem da América Latina, o melhor é um conjunto de lideranças. Existe hoje uma nova América Latina. A Bolívia exerce uma liderança, o Equador, o Paraguai, o Chile, Cuba." As declarações foram feitas pouco antes do início da segunda sessão de discussões da Cúpula da América Latina e do Caribe (CALC).   Ao comentar a crise econômica global, Chávez disse que ela seria um sinal de que o capitalismo "está morto" e a região deve buscar como alternativa a consolidação do socialismo. "O socialismo não está morto. Está mais vivo do que nunca. O que está morto é o capitalismo."   Chávez evitou, porém, a confrontação direta com as posições do governo brasileiro, que além de participar do G-20, grupo de economias desenvolvidas e emergentes mobilizadas para discutir a crise financeira mundial, que mantém políticas econômicas consideradas neoliberais por parte da maioria dos países latino-americanos. "Não vou falar por Lula. Não acho que ele esteja pensando em revisar o capitalismo", disse Chávez."O capitalismo não é de (Barack) Obama nem de (George W.) Bush", afirmou o presidente venezuelano, referindo-se ao presidente eleito dos EUA e ao que deixará o cargo em 2009. E acrescentou: "O capitalismo é do diabo. De Obama esperamos um pouco."   Chávez qualificou de "inúteis" as "medidas desesperadas" adotadas pelos países desenvolvidos, que injetaram bilhões de dólares para "tentar salvar" suas economias. O venezuelano também observou que na Europa já se fala em um "novo" capitalismo. "Fidel Castro me disse há pouco tempo que Bush fez um apelo para salvar o capitalismo. A nossa reposta é o socialismo democrático, que estamos desenvolvendo na América Latina", disse.   (Com Tânia Monteiro e Denise Chrispim Marim)

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