Cenário: Oposição argentina faz aposta alta na migração ao centro

Há uma semana, ainda surpreso com a estreita margem de votos com que seu partido, o PRO, venceu as eleições municipais da cidade de Buenos Aires, Mauricio Macri fez um discurso inesperado, ao menos para um candidato conservador. O líder de oposição com maiores possibilidades de vencer o candidato do governo, Daniel Scioli, declarou que, se eleito presidente em outubro, manterá a empresa de petróleo YPF no âmbito estatal. E foi além, afirmando que a Aerolíneas Argentinas também continuará parte do Estado. Acrescentou que, sob sua gestão, as duas empresas começariam a ter um bom funcionamento. A surpresa deve-se ao fato de que, embora o PRO não tenha uma plataforma explícita quanto à gestão de bens públicos, sempre foi clara sua oposição a um intervencionismo estatal na economia, tanto pelas ações do partido, como pelo perfil de Macri, que vem de uma família rica de empresários. 

Carlos de Angelis, O Estado de S. Paulo

25 de julho de 2015 | 17h52

O fato de ele ter feito menção às duas companhias não foi por acaso. A Aerolíneas Argentinas foi fundada por Perón em 1950. Sempre foi considerada uma empresa nacional, uma carga simbólica importante para uma empresa aérea. A Aerolíneas Argentinas foi uma das primeiras empresas privatizadas por Carlos Menem. Foi adquirida pela Iberia, passou por altos e baixos e quase chegou à falência, em 2008, quando Cristina Kirchner decidiu estatizá-la. No Congresso, os parlamentares do PRO votaram contra a estatização e defenderam a criação de uma nova companhia. 

A YPF, assim como outras empresas petrolíferas no Brasil, ou a Pemex, no México, era considerada parte fundamental e inseparável da “soberania nacional”. No entanto, a YPF não escapou da onda de privatizações dos anos 90. Sua venda foi feita por partes e, em 1999, foi vendida a “ação de ouro” que outorgava ao Estado poder sobre determinadas decisões da empresa. Finalmente, quando, em 2012, a Câmara aprovou o projeto de lei que expropriou 51% das ações em mãos da espanhola Repsol, a bancada do partido de Macri também votou contra. 

Diante da oposição de Macri às estatizações na época, podemos considerar que o candidato hoje assume uma posição mais pragmática. Em inúmeras entrevistas, Macri disse ser importante que o Estado cumpra a função de “determinar regras e aplainar o caminho para que todo cidadão empreendedor consiga desenvolver seus projetos”. Será necessário observar com atenção se essa mudança tão inesperada de Macri o ajudará a atrair eleitores não kirchneristas nas primárias do dia 9. 

É SOCIÓLOGO, ANALISTA POLÍTICO E PROFESSOR DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS UBA 

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