Chávez anuncia nova ofensiva para reformar Constituição

Em seu 1º discurso depois de reconhecer derrota, presidente classifica triunfo da oposição de 'vitória de merda'

Agências internacionais, REUTERS

05 de dezembro de 2007 | 17h30

Depois de reconhecer a derrota para a oposição no referendo sobre a reforma constitucional na madrugada de segunda-feira, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse nesta quarta-feira, 5, que seu governo iniciará uma nova ofensiva para garantir a aprovação do projeto.   Veja também: Assista às declarações de Chávez  'Reforma pode vir por iniciativa popular' Derrota de Chávez abre nova 'era' política Última opção para novo mandato é Constituinte Tensão na América do Sul  Os pontos centrais da reforma   A trajetória de Hugo Chávez       Deixando de lado o tom quase tímido com que aceitou o rechaço a seu projeto de reforma constitucional, Chávez foi à TV nesta quarta com um discurso eloqüente, no qual afirmou ter "tudo pronto" para tirar do ar os meios de comunicação que aderirem a um suposto plano golpista contra o seu governo.   "Recomendo que administrem bem sua vitória porque nós vamos de novo à ofensiva para a grande reforma constitucional", disse Chávez, dirigindo-se à oposição. O "não" às mudanças teve respaldo de 50,7% dos eleitores venezuelanos, enquanto que o sim contou com pouco mais de 49%.   O resultado do referendo representou a primeira derrota eleitoral de Chávez desde que foi eleito pela primeira vez, há nove anos.   No mesmo pronunciamento, o presidente alertou que seu governo estava preparado no domingo para "tomar fisicamente" os meios de comunicação social que se somassem a um suposto plano conspirador preparado por setores "golpistas" da oposição.   "Estávamos prontos, tínhamos tudo pronto para tirar do ar os canais que aderissem ao plano desestabilizador (...) Não é que estávamos prontos, é que estamos prontos. Não se enganem", disse o presidente, em declarações reproduzidas pelo diário caraquenho El Universal.   O presidente também classificou o rechaço à proposta como uma "vitória de merda" da oposição.   "Estão enchendo de merda (a vitória da oposição), é uma vitória de merda, e a nossa, chamem de derrota... Mas é de coragem, é de valor, é de dignidade", disse Chávez, usando uma camisa verde-oliva e rodeado pela cúpula militar do país.   O pronunciamento ao lado da elite castrista foi convocado pelo presidente para rejeitar os rumores que circularam na imprensa afirmando que ele teria sido pressionado pelos militares a aceitar a derrota. Chávez repetiu que tomou pessoalmente a decisão antes mesmo do fim da apuração.   Proposta popular   Embora esteja proibido por lei de reenviar sua reforma constitucional para uma nova apreciação popular, o presidente afirmou que o projeto pode voltar a ser discutido caso o Parlamento ou a população venezuelana apresentem um novo projeto. Segundo ele, uma versão simplificada do texto pode ser apresentada por iniciativa popular ainda durante seu mandato.   "No (atual) período constitucional eu já perdi o direito de apresentar uma proposta de reforma como iniciativa minha, mas o povo venezuelano tem o poder e o direito de apresentar uma solicitação de reforma antes que termine este período", disse Chávez.   No entanto, segundo constitucionalistas venezuelanos, algumas das emendas à Constituição propostas por Chávez com a reforma rejeitada no domingo eram ilegais, dado que a Carta em vigência determina que os "princípios fundamentais do texto constitucional" não podem ser modificados por uma reforma.   É o caso, por exemplo, de alguns dos itens mais polêmicos da reforma; entre eles a ampliação do mandato presidencial de seis para sete anos e o fim do limite à reeleição do mandatário. Com a proposta, o presidente também poderia restringir a liberdade de expressão em caso de "emergência". A oposição acusou Chávez de pretender acumular poderes de forma ditatorial, enquanto o governo dizia que a reforma serviria para aprofundar o "poder popular".   Caso a Constituição - implantada pelo próprio Chávez - não seja alterada por iniciativa popular ou do Congresso, o presidente prometeu entregar o governo ao fim de seu mandato, em 2013, mas disse que não abandonará a vida pública.   Decisão solitária   Além de afirmar ter tomado a decisão de reconhecer a derrota solitariamente, o presidente acrescentou que, se a apuração fosse até o final, haveria "empate técnico" ou até uma vitória do "sim".   "É o plano do império (EUA) para tentar continuar apresentando aos povos do mundo um Hugo Chávez irascível, cabeça quente (...), que continua sendo um tirano que é preciso matar ou que é preciso derrubar," afirmou.   O presidente também rejeitou os apelos à reconciliação feitos insistentemente por seus adversários desde a divulgação do resultado do referendo. Ele ainda pediu que a oposição avalie "sua vitória de Pirro, porque é preciso jogar isso na cara".   "(Aos) esquálidos (opositores) que estão fazendo contas, que acham que Chávez está debilitado, que está choroso, que tem a cabeça quente: desçam dessa nuvem, compadre. (...) Aqui tem Chávez para bastante tempo, aqui tem revolução para bastante tempo, a revolução chegou aqui para ficar."

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