Chávez confirma prisão de agentes colombianos na Venezuela

Relação entre os dois países piora nas vésperas da assinatura do acordo militar entre Bogotá e EUA

estadao.com.br,

28 de outubro de 2009 | 11h33

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, confirmou a detenção de "dois funcionários" do Departamento Administrativo de Segurança da Colômbia (DAS, inteligência) por espionagem e afirmou que ambos serão "julgados" em tribunais nacionais. A informação amplia a tensão entre Caracas e Bogotá - cujas relações se deterioraram ainda mais após a descoberta, no fim de semana, do assassinato de oito colombianos no Estado venezuelano de Táchira. Na mesma chacina, também morreram um peruano e um venezuelano.

 

A tensão nas relações diplomáticas dos dois países surgiu com a oposição de Chávez à decisão do presidente colombiano, Álvaro Uribe, de autorizar o uso de sete bases militares em seu país por tropas norte-americanas. Chávez acusa que a autorização da Colômbia aos EUA é mais um passo na intenção de Washington de invadir seu território e bloquear sua revolução bolivariana a favor dos mais pobres. O acordo militar entre Bogotá e Washington, que prevê a instalação de bases americanas em território colombiano, deve ser assinado nesta sexta-feira.

 

Chávez disse ainda que o aumento da presença de espiões colombianos na Venezuela está relacionado com uma conspiração contra seu governo, que, segundo ele, teria apoio do governo dos Estados Unidos.

O presidente, que falou à estatal "Venezolana de Televisión" ("CTV"), não explicou quando e onde foram detidos os supostos agentes colombianos, cujas identidades não foram reveladas, e ressaltou apenas que "estão capturados e serão julgados segundo as leis venezuelanas". "Foram capturados com a mão na massa", enquanto buscavam informação sobre "as milícias venezuelanas", declarou Chávez.

 

Para o líder venezuelano, o suposto "aumento" das atividades da "espionagem" de um "governo hostil como é o da Colômbia" indicaria a existência "de planos contra a Venezuela". A acusação do governo venezuelano e a negação da Colômbia acontecem em meio a uma crise diplomática entre os dois países que também afetou o comércio bilateral de mais de 7 bilhões de dólares anuais.

 

Em Bogotá, o DAS emitiu um comunicado negando que seus agentes tenham recebido instruções para desenvolver atividades em território venezuelano. "Nossos funcionários são expressamente proibidos de se deslocar para o território desse país", diz o comunicado.

 

"Fenômeno" colombiano

 

Chávez afirmou que o assassinato de oito colombianos na fronteira entre Venezuela e Colômbia responde a um "fenômeno" que vem do território colombiano que não foi contido pelo governo de Álvaro Uribe. "Dizem que foi a guerrilha. Tenha sido a guerrilha, paramilitares, crime organizado ou narcotráfico, é um fenômeno que vem da Colômbia... Um país que escapou do presidente Álvaro Uribe", afirmou Chávez.

 

Caracas negou permissão para o pouso de um avião oficial da Colômbia que deveria buscar os corpos, que foram levados até a fronteira entre os dois países. A possibilidade de as vítimas serem paramilitares também não foi descartada. As vítimas foram sequestradas em 11 de outubro durante uma partida de futebol. Bogotá não quis apontar supostos culpados pelo ocorrido. O chanceler colombiano, Jaime Bermúdez, apenas disse que "todas as hipóteses" estão sobre a mesa para discussão.

 

Acordo militar

 

O ministro da Defesa da Colômbia, Gabriel Silva, disse em Washington na terça-feira que Bogotá assinará "possivelmente" nesta sexta-feira o acordo militar de dez anos com os Estados Unidos, apesar de toda a controvérsia gerada pelo assunto em alguns países da América Latina.

 

O Executivo colombiano segue para a assinatura depois de ter recebido um parecer do Conselho de Estado, máximo tribunal do país, sobre o polêmico acordo, de acordo com o previsto pela Constituição do país. O Conselho propôs que o texto do acordo, fechado em 14 de agosto, fosse submetido ao Congresso colombiano, mas o governo do país afirmou que o parecer não era vinculativo e, por causa das eleições legislativas e presidenciais de 2010, quis evitar demoras em sua assinatura.

 

Silva insistiu em que o Conselho não tomou uma "decisão judicial", mas sim deu uma "opinião" de caráter reservado e que, no final, o Executivo colombiano decidiu proceder à assinatura do pacto de cooperação militar. O ministro assegurou que as autoridades da Colômbia seguiram um processo "muito cuidadoso" de negociação do acordo que não oferece nenhuma "novidade" e simplesmente formaliza a cooperação em matéria de segurança regional entre ambos os países.

 

O acordo permitirá que os EUA utilizem até sete instalações militares na Colômbia na luta contra o narcotráfico e a guerrilha. Uma das bases é a de Palanquero, para a qual o Congresso dos EUA já autorizou investimentos de US$ 46 milhões destinados à ampliação de uma rampa, à construção de hangares e a outras obras de infraestrutura. Com este acordo, os EUA compensam a decisão do Equador de não renovar o pacto para o uso da base militar de Manta, no litoral do Oceano Pacífico.

 

O acordo recebeu a oposição da Venezuela e de outros governos da região, que o consideram como uma ingerência de Washington, e foi o tema dominante de uma cúpula extraordinária da União de Nações Sul-americanos (Unasul) ocorrida em Bariloche (Argentina) no dia 28 de agosto.

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