Chávez desmente Uribe e põe em xeque relações com Colômbia

Venezuelano diz que presidente da Colômbia cedeu a pressões dos EUA para não levar processo de paz adiante

Lourival Sant'Anna, do Estadão,

25 de novembro de 2007 | 18h22

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, desmentiu a versão do governo colombiano sobre os motivos da ruptura da mediação para a libertação dos reféns mantidos pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Ele afirmou que o presidente Álvaro Uribe cedeu a pressões dos Estados Unidos para não levar adiante o processo de paz, e que o episódio afetará as relações entre a Venezuela e a Colômbia.   Chávez fez um relato oposto ao de Uribe acerca do conteúdo da reunião que ambos tiveram em Santiago, durante a cúpula ibero-americana, na semana retrasada. Segundo o presidente venezuelano, ficou acertado que as Farc libertariam unilateralmente um grupo de reféns e que, em seguida, se instalaria uma mesa de negociações em San Vicente del Caguán, no centro-sul da Colômbia, o mesmo palco do fracassado diálogo com o governo do ex-presidente Andrés Pastrana, em 1999.   Dessas negociações, participariam Chávez e o líder das Farc, Manuel Marulanda. "Estava colocada uma fórmula que ia no caminho do êxito, mas há gente muito próxima a ele (Uribe) que quer a guerra, e sobretudo os gringos, porque não lhes importa a vida, nem essas crianças, mulheres, homens, pais, mães, esposos e esposas", disse Chávez, em entrevista ao programa La Hojilla (lâmina de barbear), da TV estatal, na madrugada de sábado.   Uribe pôs fim à mediação depois que Chávez telefonou para o general Mario Montoya, comandante do Exército colombiano, na tentativa de convencê-lo a criar uma zona desmilitarizada para as negociações, medida sempre descartada pelo presidente da Colômbia. "Eu me sinto traído em minha boa fé", queixou-se o presidente venezuelano. "Uribe, o mínimo que deveria fazer, tão logo o general Montoya foi ao palácio e lhe disse que falei com ele, era me ligar, enviar-me alguém: 'Chávez, esclareça-me isso', e eu teria esclarecido."   De acordo com o alto comissionado da paz colombiano, Luis Carlos Restrepo, Uribe havia recusado uma oferta de Chávez para ligar para Montoya, para conversar sobre esse tema. "Hugo, você não pode falar com meus generais, porque vão virar chavistas. Tudo o que houver que falar sobre esse tema, falamos nós dois", teria pedido Uribe, segundo relato de funcionários colombianos, citados pelo jornal El Tiempo, de Bogotá.   Chávez nega ter sido proibido de falar com Montoya. "Tenho dúvida sobre se Restrepo é comissionado da paz ou da guerra, porque ele mente", disparou Chávez na entrevista. "Perdi a confiança, e isso para as relações bilaterais é grave", advertiu. "Isso vai afetar as relações bilaterais. Uribe rompeu um compromisso. Isto é muito grave, e tomo nota."   Essas frases fizeram soar o alarme no Palácio de Nariño, em Bogotá. Empresários colombianos manifestaram ao governo preocupação em relação ao comércio bilateral. A Venezuela caminhava para retornar à Comunidade Andina de Nações (CAN) - da qual Chávez se retirou intempestivamente em abril do ano passado - e a chegar a um acordo com a Colômbia sobre disputas fronteiriças.   Restrepo chamou a imprensa no sábado mesmo e leu um comunicado do governo colombiano, no qual exorta: "Não devemos cair em armadilhas do terrorismo." O texto põe em dúvida a disposição real das Farc de soltar os 49 reféns, incluindo a ex-senadora e candidata a presidente Ingrid Betancourt, colombiana com nacionalidade francesa. Mas afirma que o governo colombiano continuará fazendo "todos os esforços para a libertação dos seqüestrados, e espera que as Farc entreguem os reféns de maneira unilateral", seja a Chávez, ao presidente da França, Nicolas Sarkozy, ou à Cruz Vermelha.

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