Chávez enfrenta momento mais difícil da luta contra câncer, diz vice

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi infectado com câncer por seus inimigos "imperialistas", disse seu vice nesta terça-feira, acrescentando que o líder socialista enfrenta seus momentos mais difíceis de uma batalha de dois anos contra a doença.

ANDREW CAWTHORNE E DANIEL WALLIS, Reuters

05 de março de 2013 | 18h40

As acusações e o sombrio boletim médico foram apresentados pelo vice-presidente do país, Nicolás Maduro, durante uma reunião com líderes políticos e militares no palácio presidencial de Miraflores, com transmissão pela TV.

"Não temos dúvida de que o comandante Chávez foi atacado com essa doença", disse Maduro, repetindo uma acusação feita inicialmente pelo próprio Chávez, segundo quem o câncer era um ataque de inimigos "imperialistas" nos Estados Unidos em conjunção com opositores internos.

"Os velhos inimigos da nossa pátria buscaram uma forma de fazer mal à sua saúde", disse Maduro, comparando isso às suspeitas de que o líder palestino Yasser Arafat, que morreu em 2004, pode ter sido envenenado por agentes israelenses.

Chávez não é visto nem ouvido em público desde que se submeteu em Cuba a uma cirurgia em 11 de dezembro, a quarta desde que a doença foi diagnosticada na região pélvica, em meados de 2011.

O governo afirmou que os problemas respiratórios de Chávez se agravaram, com uma nova infecção respiratória "severa", e que seu estado é muito delicado.

"São as horas mais difíceis desde a sua operação", disse Maduro, pedindo aos venezuelanos que se unam em oração pelo líder, de 58 anos.

Citando inúmeras conspirações dentro e fora da Venezuela, Maduro disse que o adido militar da Força Aérea dos Estados Unidos na Venezuela foi expulso do país sob a acusação de tentar insuflar um golpe militar.

Um porta-voz do Departamento de Defesa norte-americano identificou o funcionário como sendo o coronel David Delmonaco, que está a caminho do seu país.

O chanceler venezuelano, Elias Jaua, disse mais tarde que dois diplomatas dos Estados Unidos foram expulsos.

"Nossa responsabilidade suprema é continuar dizendo a verdade ao povo", disse Maduro, cercado por autoridades circunspectas, entre as quais o irmão mais velho de Chávez, Adán, que é governador estadual.

Dezenas de pessoas se reuniram desde o começo da manhã na capela do hospital militar onde as autoridades dizem que Chávez está internado desde que voltou de Cuba, há duas semanas. Algumas pessoas rezavam em voz alta; outras choravam em silêncio.

O governo diz repetidamente que Chávez está lutando pela vida. Embora com poucos detalhes médicos, autoridades dizem que ele respira por um tubo traqueal que não lhe permite falar, e que passa por uma nova rodada de quimioterapia "de alto impacto".

Há furiosas especulações, especialmente em meios de comunicação ligados à oposição, de que Chávez pode já estar morto. O líder oposicionista Henrique Capriles acusa repetidamente Maduro e outros de estarem mentindo sobre o estado de Chávez.

O presidente é adorado por muitos venezuelanos pobres por causa das suas origens humildes, da sua retórica popular e das políticas sociais financiadas pelos dividendos petrolíferos.

Seus adversários, no entanto, o veem como uma líder ditatorial, que teria arruinado uma economia abençoada com as maiores reservas petrolíferas do mundo.

QUIMIOTERAPIA

Chávez sofreu múltiplas complicações após a cirurgia mais recente, incluindo uma hemorragia e outra infecção respiratória severa, que as autoridades dizem ter sido controlada.

Em fases anteriores da doença, ele passou por dolorosos ciclos de químio e radioterapia, que lhe deixaram em alguns momentos careca e inchado. Em duas ocasiões, ele se declarou curado do câncer.

Alguns especialistas médicos disseram ter dúvidas de que Chávez estava forte o suficiente para receber mais quimioterapia no momento.

Desde a quarta cirurgia, a única imagem dele são quatro fotos publicadas pelo governo, ainda em Havana. Ele aparece em um leito hospitalar, junto às filhas.

Em vários lugares da Venezuela, estudantes realizam protestos -alguns deles se acorrentando- para exigir provas de que Chávez está vivo, e mais detalhes médicos.

"A falta de informação precisa preocupa os venezuelanos e contribui com os rumores", disse Ramón Guillermo Aveledo, secretário-executivo da coalizão oposicionista Unidade Democrática. Ele criticou as declarações de membros do governo contra a oposição nos últimos dias.

Maduro e outros dirigentes têm chamado diariamente os oposicionistas de "fascistas" e "conspiradores", acusando-os de exultarem com o sofrimento de Chávez e de tramarem para desestabilizar a Venezuela.

Se Chávez renunciar ou morrer, uma nova eleição deverá ser realizada em 30 dias, provavelmente antepondo Maduro a Capriles. As pesquisas mostram que Maduro seria o favorito, impulsionado pelo apoio declarado por Chávez antes de viajar a Cuba pela última vez.

(Reportagem adicional de Gairish Gupta, Mario Naranjo, Marianna Párraga e Patricia Vélez, em Caracas; e de David Adams, em Miami)

Tudo o que sabemos sobre:
VENEZUELACHAVEZCANCER*

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.