Chávez tenta aproveitar a deterioração diplomática dos EUA

Expulsão do embaixador americano e aproximação com Rússia buscam respaldo interno na véspera de eleições

Talita eredia, estadao.com.br, com agências internacionais

12 de setembro de 2008 | 17h59

As manobras do presidente Hugo Chávez de expulsar o embaixador americano de Caracas em apoio ao governo boliviano, e os exercícios militares conjuntos com as Forças Armadas russas, são um meio do venezuelano levar vantagem com a deterioração da política externa americana com a Bolívia e a Rússia, ganhando terreno internamente e se fortalecendo nas vésperas das eleições municipais de outubro. Segundo o professor da Cátedra Memorial da América Latina e da Universidade Central da Venezuela Carlos Romero, a crise é motivo de grande preocupação, e a ingerência venezuelana nos assuntos bolivianos não ajuda "nenhum centímetro" a paz no país.   Veja também: EUA expulsam embaixador venezuelano de Washington Chávez expulsa embaixador dos EUA da Venezuela Exército boliviano rejeita intervenção estrangeira durante crise Entenda os protestos da oposição na Bolívia Enviada do 'Estado' mostra imagens dos protestos na Bolívia  Imagens das manifestações     Chávez teme mais uma derrota eleitoral nas próximas eleições depois de ter sua proposta de Constituição rechaçada pela população em um referendo no ano passado, quando tentou ampliar seus poderes e garantir sua reeleição indefinida. Com a crise entre o governo e a oposição na Bolívia, o venezuelano reiterou apoio ao aliado esquerdista e chegou a afirmar que invadiria o país caso Evo Morales fosse destituído. Além disso, Chávez anunciou a investigação de uma suposta conspiração militar que contava com o apoio americano para matá-lo e ameaçou cortar o fornecimento de petróleo para os EUA.   Os novos ataques de retórica antiamericana são vistos com desconfiança, pois são vinculados mais com uma estratégia eleitoral, para se mostrar fortalecido, do que como uma genuína batalha ideológica. Chávez afirma que os opositores venezuelanos - apoiados pelo governo americano - poderiam tentar atacar o governo por meio da eleição de governadores e prefeitos, por isso pede que os "revolucionários" respaldem os candidatos de seu partido.   As expulsões dos embaixadores elevaram os níveis da tensão entre Washington e os governos esquerdistas dos dois países. O analista aponta que a crise tem origem em três razões: na situação de instabilidade política na Bolívia e em menor grau na Venezuela, cujos governos responsabilizam conspirações opositoras apoiadas pelos EUA; a posição antiamericana deliberada de Evo e Chávez, que justificam o rompimento com Washington como um meio de desenvolver o país e o fato dos dois governos buscarem relações geopolíticas mundiais com nações que não são bem vistas pelos EUA, como a relação de Caracas com Moscou e as recentes negociações entre Bolívia e Irã.   Para o especialista venezuelano, Chávez tenta tirar proveito não só da crise diplomática dos EUA com a Bolívia - que responsabilizou o governo americano por apoiar os opositores - mas também da Rússia - que tenta conter o avanço de alianças americanas nos países da ex-república soviética. As manobras militares com navios e aviões anunciadas por Moscou e Caracas em águas venezuelanas, em resposta à movimentação da frota dos EUA no Mar Negro por conta da crise na Geórgia, são uma tentativa de ceder espaço da área de influência dos EUA ao governo russo.   Romero aponta que Chávez não conta com o apoio da América Latina, já que os países acreditam que a região, tão conturbada por conflitos no passado, deve fazer o possível pela manutenção da paz. Além disso, as operações entre Rússia e Venezuela na região não afetam a capacidade estratégica americana no continente, visto que os demais países buscam a aproximação do governo americano - a não ser no aspecto simbólico, num contexto semelhante ao da Guerra Fria. Nações como Brasil, Argentina, Chile e Colômbia devem se mobilizar para conter a crise na Bolívia, promover o diálogo e evitar o aprofundamento da situação na região.   O analista lembra ainda que os processos judiciais aumentam ainda mais a deterioração das relações entre Venezuela e EUA. Entre eles está a acusação de que pessoas ligadas ao governo de Caracas, inclusive o ex-ministro do Interior e Justiça Ramón Rodríguez Chacín, estariam envolvidos com o tráfico de drogas e armas por um suposto apoio às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Um dia após a expulsão do embaixador americano da Venezuela, o Tesouro americano anunciou que congelará os bens dos acusados.   Além disso, a Justiça dos EUA iniciou nesta semana o julgamento de um empresário venezuelano envolvido no chamado "escândalo da maleta". No episódio, o americano-venezuelano Guido Antonini desembarcou em Buenos Aires, vindo da Venezuela, com US$ 800 mil - que, segundo os EUA, eram destinados à campanha de Cristina Kirchner.

Tudo o que sabemos sobre:
VenezuelaEUABolívia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.