Tomas Bravo/Reuters
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Chávez tenta levar socialismo a ponto 'sem volta' na Venezuela

CARACAS - Há um ano, com a Venezuela sacudida pelos rumores sobre a saúde do presidente, ninguém esperava ver Hugo Chávez montado em um caminhão, prometendo a gritos e com o punho ao alto que levará sua revolução socialista a um ponto sem volta se conseguir sua terceira reeleição em 7 de outubro. Três cirurgias e dois tratamentos extenuantes contra o câncer em apenas um ano forçaram o mandatário a moderar sua hiperatividade, mas o homem forte da Venezuela teve que apertar o passo na reta final da campanha para enfrentar o jovem Henrique Capriles, seu maior desafio nas urnas desde que ganhou a presidência há 14 anos.

Reuters

06 de outubro de 2012 | 16h05

 

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A doença, cujos detalhes são segredo de Estado, evidentemente abalou o militar aposentado, e seus comícios foram mais curtos e espaçados do que nas outras 13 campanhas que liderou desde 1998, nas quais sofreu apenas duas derrotas - por estreita margem. Mas o câncer reforçou a conexão com seus seguidores, que continuam vendo o mandatário como um protetor dos excluídos e reivindicam sua história de menino pobre que sonhava em ser jogador de beisebol nos Estados Unidos e acabou regendo os destinos da nação caribenha, onde mudou quase tudo.

"Não se equivoquem com este velho. Mais velho é o vento e ainda sopra", sarcasticamente responde para aqueles que duvidam que, com 58 anos e a saúde enfraquecida, esteja em condições de dirigir o país por mais seis anos. Para seus opositores, Chávez é um megalomaníaco líder de um governo corrupto e ineficiente que acabou com quatro décadas de institucionalidades democráticas e dividiu a Venezuela semeando o ódio entre pobres e ricos.

O presidente, duas vezes divorciado e com quatro filhos, defende um "anticapitalismo" radical que controle de perto o setor privado e assegura que seu adversário pretende implementar um pacote de medidas de ajuste fiscal que irá desfazer os benefícios de seu modelo socialista. "Imaginem a aplicação de um pacote neoliberal, que é a proposta inviável que a burguesia tem. Por isso, ofereço um seguro que impeça voltar atrás", disse em entrevista, na qual prometeu um "poderoso parafuso" para blindar seu projeto socialista, que poderia ser traduzido em mais medidas radicais.

Dramático, espontâneo, imprevisível, sua controversa política exterior foi manchete no mundo todo com suas ferozes investidas contra o "império norte-americano", suas alianças com países sob escrutínio internacional, como Cuba, Irã e Síria, e seu empenho em construir uma frente socialista na América Latina.

 

O presidente 'das dificuldades'

 

Chávez gosta de equiparar a sua "revolução" com o movimento independentista de Simón Bolívar e, imitando o Libertador venezuelano, se qualifica como "o homem das dificuldades". Seu relicário de crises inclui ter sobrevivido a um fugaz golpe de Estado, a uma greve petroleira que quase quebra o país, ter vencido em um referendo da oposição para revogar o seu mandato e superar um câncer que, segundo suas próprias palavras, o levou à beira da morte.

Conhecido por seus prolongados discursos que podem durar nove horas, ficou famoso com um improvisado discurso de poucos segundos no qual o então tenente-coronel assumia a sua responsabilidade por um fracassado golpe de Estado em 4 de fevereiro de 1992, pelo qual passou dois anos na prisão. Depois de recuperar a sua liberdade, sem recursos nem espaço nos veículos de comunicação, percorreu o país pregando sua mensagem de mudança bolivariana e justiça social para, quatro anos depois, conseguir com os votos o que não pôde com as armas.

Fiel a seu polêmico estilo militar, Chávez promoveu mudanças radicais no país com as maiores reservas mundiais de petróleo. Aprovou uma nova Constituição, nacionalizou amplos setores da economia e lançou massivos planos sociais de saúde, alimentação e moradia financiados com o petróleo.

Sua linguagem simples e, às vezes, irreverente encanta seus simpatizantes e irrita seus inimigos, que o acusam de falar muito e fazer pouco para resolver os problemas diários dos venezuelanos, como a criminalidade, o alto custo de vida e as falhas nos serviços públicos. Chamado pela esquerda como o "herdeiro político" de seu amigo e aliado cubano Fidel Castro, o mandatário nunca disse quem poderia ser seu sucessor se a doença atacar novamente.

Enquanto isso, ele garante, vez e outra, que o chavismo já não é apenas uma questão de Chávez. "Chávez já não sou eu. Você também é Chávez, garota. Você também é Chávez, garoto. Todos somos Chávez!", disse na campanha com a qual busca selar duas décadas no poder afirmando, cada vez que perguntam a ele, "que vinte anos não é nada."

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