Chávez volta à cena com entrada da Venezuela no Mercosul

Em sua primeira viagem ao exterior desde que se submeteu a um tratamento contra o câncer neste ano em Cuba, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, celebrou nesta terça-feira a adesão do seu país ao bloco regional Mercosul, que passa por um momento de turbulência.

ALONSO SOTO, Reuters

31 de julho de 2012 | 19h49

Ignorando as críticas, Chávez disse que o fato é uma continuação de sua dita revolução socialista e um sinal de maior influência da América do Sul como um todo.

"Nosso norte é o sul", disse o presidente, evocando Simón Bolívar e outros líderes revolucionários que lutaram contra o colonialismo. "O Mercosul é, sem dúvida, o motor mais poderoso que existe para preservar nossa independência", disse Chávez em Brasília.

O líder venezuelano, que recentemente se declarou curado do câncer e está em campanha para a reeleição, fez o discurso de 20 minutos em voz firme e clara, e ficou de pé esse tempo todo.

A Venezuela só conseguiu aderir ao Mercosul porque o bloco suspendeu no mês passado a participação do Paraguai por discordar da legitimidade do processo de impeachment que depôs o presidente Fernando Lugo. O Parlamento paraguaio ainda não havia aprovado a adesão venezuelana ao Mercosul.

O Mercosul, formado também por Brasil, Argentina e Uruguai, tem um Produto Interno Bruto (PIB) combinado de 3,3 trilhões de dólares, e seria a quinta maior economia do mundo se fosse um só país, segundo os líderes.

Muitos críticos dizem que o bloco adotou nos últimos anos uma tendência protecionista e esquerdista que contraria os objetivos iniciais do Mercosul, voltado para a liberalização comercial.

O Paraguai não participou da reunião desta terça-feira em Brasília, e a presidente Dilma Rousseff disse que o país será readmitido quando "normalizar" sua política interna. Governos da região consideram que isso só deverá acontecer após a realização das eleições presidenciais paraguaias marcadas para 2013.

A maioria dos participantes evitou tratar da polêmica paraguaia, preferindo criticar a ortodoxia econômica dos países desenvolvidos. Eles citaram o Mercosul como um veículo para avançar as metas regionais de comércio justo, crescimento equitativo e inclusão social.

Chávez afirmou que empreiteiras do Mercosul deveriam participar de projetos de habitação popular atualmente em curso na Venezuela.

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, afirmou que a região vai continuar produzindo as matérias-primas tão importantes para a economia global, mas que os países ricos têm a obrigação de oferecer "estabilidade financeira" em troca. Segundo ela, o Mercosul pode "tornar esse novo polo de poder indivisível, indestrutível".

Em suas declarações oficiais, os líderes saudaram os trunfos da Venezuela como um grande produtor de petróleo e um importante mercado para produtos de máquinas brasileiras a trigo argentino.

Na prática, porém, a Venezuela não poderá participar plenamente do bloco enquanto não aceitar as tarifas comuns do Mercosul, os acordos comuns com terceiros países e outros pré-requisitos que Chávez não cumpriu desde o início das negociações de adesão, em 2006.

(Reportagem adicional de Paulo Prada, no Rio de Janeiro)

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