Carlos Garcia Rawlins/REUTERS
Carlos Garcia Rawlins/REUTERS

Chavismo elege 17 governadores em votação considerada teste para Maduro

Oposição conquistou seis Estados, mas denuncia fraude em processo eleitoral,que registrou 61% de participação

O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2017 | 01h34

O chavismo venceu ontem em 17 dos 23 Estados disputados em eleição marcada por denúncias da oposição de irregularidades e vista por analistas como um termômetro do apoio ao governo de Nicolás Maduro diante da crise e escassez vividas no país.

Segundo o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), controlado pelo governo, a votação de ontem ocorreu “em clima de tranquilidade”, apesar de terem ocorrido problemas com algumas urnas eletrônicas. A presidente do órgão, Tibisay Lucena, afirmou que a participação eleitoral foi de 61%, maior do que a média para eleições regionais no país, que oscila de 30 a 40%.

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Vencer a alta abstenção era um dos desafios da oposição após desmobilização nas ruas. A coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) acusou o chavismo de fraude após a divulgação dos resultados. Antes da votação, a oposição controlava três Estados e agora teve governadores eleitos em seis.

O ex-candidato presidencial Henrique Capriles questionou a troca de centros eleitorais no dia da votação. Segundo ele, 11 mil eleitores de Miranda aguardavam em filas para votar, mas foram enviados para outro centro, que, segundo o opositor, não tinha capacidade de atender a todos.

A mudança de pontos de votação também foi denunciada em outros Estados. Em alguns casos, os eleitores precisaram andar quilômetros entre um local e outro ou passar de redutos opositores para bairros chavistas.

Em uma escola no nordeste de Caracas, uma placa informava que os eleitores estavam registrados em um centro dentro de uma favela próxima. “Eles colocam esse obstáculo para que a gente desista e volte para a casa”, reclamou o empresário Ignacio Sánchez, enquanto esperava ao lado de dezenas de vizinhos para pegar um dos ônibus que a oposição prometeu enviar e ir até o novo local onde estava registrado para votar.

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Dias antes da eleição, o CNE havia determinado a realocação de mais de 200 centros eleitorais em 16 Estados, alegando questões de segurança, o que impactou 715 mil eleitores.

Segundo a oposição, os centros fechados ficavam em distritos onde opositores poderiam obter a maioria dos votos, mas o CNE afirmou que eram áreas onde ocorreram boa parte dos protestos entre abril e agosto contra o regime Maduro – que terminaram com 125 mortos.

O chefe de campanha da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), Gerardo Blyde, disse que muitos pontos de votação abriram mais tarde do que o previsto por falta de luz, defeitos nas urnas ou ausência de membros do poder eleitoral.

Em Maracaibo, segunda maior cidade venezuelana, testemunhas relataram nas redes sociais que grupos de homens mascarados quebraram janelas de carros e jogaram coquetéis molotov contra uma tenda da oposição. Segundo o ministro da Defesa, o general Padrino López, 26 crimes eleitorais foram registrados ao longo da votação, entre eles a apresentação de documento de identidade falso, mas sem interferência no resultado.

Condições. A primeira eleição para governador desde 2012 ocorre com um ano de atraso, mas é vista pela oposição como um plebiscito contra Maduro. Após quatro meses de protestos contra o governo, a MUD tenta retomar a luta, no primeiro duelo eleitoral desde sua vitória nas legislativas de 2015, quando a oposição rompeu a hegemonia chavista de 18 anos.

Antes das urnas fecharem, o presidente deu uma breve declaração em tom de vitória. “Temos o triunfo em nossas mãos.” Maduro avisou que os eleitos que não jurarem lealdade à Assembleia Constituinte não vão tomar posse. O alerta foi repetido ontem pelo número dois do chavismo, Diosdado Cabello. A MUD descartou a possibilidade de seguir a ordem, o que pode levar a novos conflitos no país.

Apesar de a MUD ter maioria no Parlamento, o poder do Legislativo foi anulado pela Justiça – acusada de atuar em favor do governo – o que pode ocorrer com os governadores em função da Constituinte. A coalizão opositora havia adiantado minutos antes do anúncio oficial do CNE que os números obtidos por seus observadores eram muito diferentes dos que estavam sendo contabilizados pelo órgão eleitoral. Para a oposição, o Conselho Eleitoral havia tido um comportamento “suspeito e diferente” do registrado em outras eleições.

Enquanto o chavismo tentava se manter no poder na maior parte dos 20 Estados que comanda, a oposição enfrentava também o obstáculo da divisão: alguns defendiam o voto, mas outros acreditavam que a abstenção era a forma de continuar protestando e não legitimar o governo Maduro. “Tantas mortes em protestos e foi tudo por uma eleição? Se eu votar pela oposição, o governo não vai deixar ela trabalhar”, afirmou Janeth Hernández na Plaza Francia, epicentro dos protestos opositores. / AFP, REUTERS e WASHINGTON POST

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