Che Guevara foi encontrado e executado com ajuda da CIA

Em arquivos publicados há dez anos, agência revela como ajudou o Exército boliviano a eliminar o guerrilheiro

08 de outubro de 2007 | 14h29

Arquivos secretos da CIA trazidos a público durante as comemorações dos trinta anos da morte de Che Guevara, há exatos dez anos, mapearam os principais momentos que precederam a captura e execução do líder guerrilheiro, na vila boliviana de La Higuera.   Veja Também O que você sabe sobre Che? Teste aqui Che Guevara: De guerrilheiro a mito Fidel homenageia Che 40 anos após sua morte Show inicia homenagens em Santa Clara Novas biografias expõem 'lado negro' de Che Ex-agente da CIA relata momentos finais    A agência de inteligência americana teve papel chave no processo que levou a esse desfecho, mas a derrocada do líder guerrilheiro começou de fato em 1965, quando Che deixou Cuba com o objetivo de ajudar outros países a promover a revolução. Veja a seguir os principais episódios que marcaram o fim de Che Guevara, segundo a CIA.   3 de outubro de 1965 - Em um discurso, Fidel Castro lê uma carta de "despedida" à população cubana, escrita por Che Guevara em abril. No texto, o guerrilheiro renuncia a todas as suas posições no governo de Cuba. A manobra é vista pela CIA como um sinal de enfraquecimento de Che na ilha, já que suas idéias econômicas e desejo de "exportar" a revolução não são muito bem vistas por alguns dirigentes cubanos.   Primavera de 1966 - Che Guevara chega à Bolívia com passaporte uruguaio falsificado. Seu objetivo é firmar bases no país andino para iniciar o processo de revolução na América Latina. Para o líder argentino, a Bolívia tinha as condições ideais para a consolidação de um movimento guerrilheiro: estava distante da área de maior influência dos Estados Unidos e tinha população pobre e pronta para aceitar a ideologia revolucionária.   Outono de 1967 - Entre março e agosto de 1967, Che Guevara e suas dezenas de guerrilheiros conseguem a façanha de matar cerca de 30 soldados bolivianos, perdendo apenas um homem.   28 de abril de 1967 - Os Exércitos dos EUA e da Bolívia assinam um acordo de cooperação com o objetivo de melhorar os padrões de treinamento das tropas bolivianas.   11 de maio de 1967 - Um assessor do presidente americano Lyndon B. Johnson manda uma mensagem ao mandatário com as primeiras informações de inteligência dando conta de que Che Guevara estava vivo e operando na América do Sul   Junho de 1967 - O agente cubano-americano da CIA Felíx Rodríguez recebe a missão de assessorar o Exército boliviano na caçada a Che Guevara e seus guerrilheiros na Bolívia.   31 de agosto de 1967 - O Exército boliviano consegue sua primeira vitória contra o grupo guerrilheiro liderado por Che Guevara, matando um terço dos seus homens. A saúde de Che começa a se deteriorar.   26 de setembro de 1967 - Os guerrilheiros chegam à vila de La Higuera. Por volta das 13 horas, os rebeldes ouvem tiros vindos da estrada e são obrigados a recuar. Três guerrilheiros são mortos, e o restante foge sob ordens de Che. O governo boliviano considera o encontro uma importante vitória. Para Félix Rodríguez, torna-se claro que Che Guevara está perto de ser capturado.   29 e 30 de setembro de 1967 - Um batalhão de 650 homens treinados por um major americano é enviado para Vallegrande. Félix Rodriguez se junta ao grupo. Che e seu grupo são encurralados pelo Exército no canyon de Valle Serrano.   7 de outubro de 1967 - O dia marca a última entrada de Che Guevara em seu diário. Os guerrilheiros pedem informações a uma pastora de ovelhas, que diz não ter visto soldados na região. Che e seus homens temem ser entregues ao Exército, e pagam 50 pesos para que a mulher fique quieta.   8 de outubro de 1967 - Soldados recebem informações de que 17 guerrilheiros estão no Barranco Churro, entram na área e matam dois cubanos. Uma mulher diz ao Exército ter ouvido vozes próximo ao Rio San Antonio, mas não se sabe se é a mesma pastora avistada pelos guerrilheiros no dia anterior. Começaria aí a caçada final contra os guerrilheiros.   A Caçada Pela manhã do dia 8, várias companhias do Exército boliviano são enviadas para a área em que o grupo de Che se encontra. Os soldados tomam posição na Quebrada del Yuro, o mesmo vale em que os guerrilheiros estão.   Por volta do meio dia uma companhia treinada pelas Forças Especiais do Exército americano entra em confronto com os guerrilheiros, matando dois soldados e ferindo vários.   Che também está na Quebrada del Yuro e tenta fugir do Exército seguindo o mineiro boliviano Simon Cuba Sarabia, um de seus principais homens. A batalha final do líder argentino começa por volta das 13h30. Che é atingido várias vezes na perna direita e tem que ser arrastado por Sarabia, que tenta tira-lo da linha de tiro. O mineiro boliviano larga Che para atirar nos soldados, que concentram o fogo nos guerrilheiros. O argentino ainda tenta manter sua arma levantada, mas não consegue, porque está com um braço machucado. Ele volta a ser atingido na perna e perde o rifle. Um soldado se aproxima: "Não atire! Eu sou Che Guevara e valho mais vivo do que morto", grita o guerrilheiro. A batalha termina por volta das 15h30.   Os guerrilheiros são levados para o capitão que comanda as operações, que ordena o envio de uma mensagem ao quartel general de Vallegrande: "Olá Saturno, nos temos Papá", diz o aviso ao comandante do Exército, referindo-se à captura de Che. O prisioneiro é levado para La Higuera.   Em Vallegrande, Félix Rodríguez recebe a mensagem de que Che fora capturado.   9 de outubro de 1967 - No dia seguinte à captura de Che, uma mensagem é enviada ao presidente americano reportando a prisão do guerrilheiro. Pela manhã, Félix Rodríguez chega a La Higuera portando um potente rádio portátil e câmeras fotográficas. "Ele parece um monte de lixo", é a descrição do agente da CIA para as condições em que encontra Che. Mais tarde, numa entrevista, ele admitiria ter sentido pena ao ver o líder guerrilheiro naquelas condições.   Rodriguez fotografa o diário de Che, conversa e tira uma foto ao lado do guerrilheiro.   Execução As autoridades bolivianas discutem o que fazer com o argentino. A possibilidade de processá-lo é descartada, porque um julgamento chamaria a atenção do mundo e poderia gerar propaganda favorável a Che e Cuba. A alternativa que resta é executá-lo. A versão oficial seria de que Che fora morto em combate, vítima dos ferimentos.   O comando do Exército autoriza a operação. Segundo os arquivos da CIA, Félix Rodríguez anuncia que o governo americano esperava levar Che para o Panamá para interrogá-lo, mas o comandante da operação de captura de Che diz que deve seguir as ordens de seus superiores. Rodríguez teria decidido então "deixar que a história seguisse seu curso".   Ao saber de seu destino, Che teria dito: "É melhor assim, eu nunca deveria ter sido pego vivo".   O último desejo de Che é ter uma última refeição antes de morrer. Em um dos seus últimos diálogos, o guerrilheiro teria respondido com um "talvez" a uma pergunta sobre se era ou não materialista.   O escolhido para atirar em Che é o sargento Jaime Terán. O guerrilheiro está encostado em uma parede e se levanta ao ver o algoz se aproximar. Apavorado, Terán deixa a sala, mas é obrigado a voltar por seus superiores. Ainda trêmulo, o sargento retorna ao local. "Eu sei que você veio para me matar. Atire, você está apenas matando um homem", diz Che Guevara ao perceber que seu fim era inevitável. Sem olhar para o rosto do condenado, Téran atira contra o peito do guerrilheiro. Outros soldados entram no local dão mais tiros em Che.

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