Chega ao Peru a maior ajuda internacional já feita pelo Brasil

E deve ficar ainda maior, pois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ordenou a ampliação deste total no sábado

Roberto Lameirinhas, do Estadão,

19 de agosto de 2007 | 19h28

Três aviões Hércules C-130, carregados com 46 toneladas de alimentos enviados pelo Brasil, aterrissaram neste domingo na Base Aérea de Pisco, a cidade mais afetada pelo terremoto de 8 graus que atingiu o Peru na noite de quarta-feira, 15. Esse carregamento seria o suficiente para alimentar 10 mil pessoas por 15 dias. Segundo o Itamaraty, trata-se da maior operação de ajuda internacional já realizada pelo governo brasileiro. E deve ficar ainda maior, pois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ordenou a ampliação deste total no sábado. O auxílio do Brasil incluirá também o envio de especialistas em identificação de cadáveres, além de cães farejadores, ambulâncias e geradores de energia. Na segunda-feira, chega a Pisco um quarto avião brasileiro, com médicos, um hospital móvel e medicamentos capazes de prestar assistência a 35 mil pessoas em um mês. Os peruanos vêem o Brasil como uma potência econômica regional e, na sexta-feira, alguns dos desabrigados de Pisco chegaram a cobrar mais ajuda do País ao identificarem a reportagem do Estado na cidade. "Onde está Lula? Por que não nos ajuda?", indagavam. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, chegou neste domingo a Lima, capital do Peru, onde jantará à noite com o chanceler peruano, José Antonio García Beleaúnde. Segundo a embaixada brasileira no país, a visita de Amorim estava agendada desde antes do terremoto e não está prevista a viagem do ministro para as áreas mais afetadas pelo tremor. Amorim, no entanto, deve debater com o chanceler e com o presidente peruano, Alan García - com quem deve se reunir amanhã - detalhes sobre o envio da ajuda brasileira às vítimas do terremoto.  Ele também deve assinar com o chanceler peruano alguns convênios de cooperação técnica nas áreas de saúde e desenvolvimento social. O ministro deve reunir-se também com o secretário-geral da Comunidade Andina de Nações (CAN), Freddy Ehlers, e participa da abertura da II Reunião do Fórum sobre a Iniciativa da Bacia do Pacífico latino-americano. Tensão continua Quatro dias depois do devastador terremoto, a gestão da situação de emergência do governo peruano começava neste domingo, finalmente, a funcionar. Embora a falta de eletricidade continue mantendo a tensão entre os desabrigados num nível bastante alto, o deslocamento de mais de mil homens da Polícia Nacional e do Exército para as áreas de Pisco, Chincha e Ica - as mais afetadas pelo tremor - melhorou a situação de segurança e conteve a maior parte das tentativas de saque.  Durante a madrugada, especialistas em resgate espanhóis, do grupo Bombeiros Sem Fronteiras, tiveram de suspender os trabalhos de busca de cadáveres sob os escombros em Pisco depois de serem alvos de disparos feitos por desconhecidos. As autoridades da Defesa Civil explicaram que os autores desses disparos são comerciantes que montaram guarda ante as ruínas de seus estabelecimentos para enfrentar os saqueadores. Na escuridão de Pisco, não conseguem distinguir os resgatistas dos ladrões. Em Lima, um diretor da agência reguladora dos serviços de eletricidade - Organismo Superior de Investimentos em Energia e Mineração -, falando sob condição de anonimato, disse ao Estado que a situação em Pisco não se normalizará antes do fim da semana. "O tremor destruiu as torres das linhas de transmissão e esse é um tipo de reparo que leva tempo", afirmou. Em Cañete, cidade a 170 quilômetros de Lima também atingida pelo tremor, os danos à rede elétrica foram menores e a situação já está normalizada em 98%. Mas em Ica, apenas 40% das casas têm luz. Água potável, alimentos, medicamentos, roupas e cobertores passaram ontem a chegar com maior freqüência às cidades semidestruídas. Em Pisco, onde 85% das casas desabaram e a situação dos desabrigados é mais dramática, foram instalados dez "assentamentos humanos", que passaram a abrigar mais de 20 mil pessoas em barracas de campanha. Muitos moradores, no entanto, temendo os saques, resistem em abandonar os escombros de suas casas. O comandante do Exército peruano, general Edwin Donayre, descartou a possibilidade de o governo decretar um toque de recolher, como pedem as associações de comércio das áreas afetadas. "As forças de segurança mantêm totalmente o controle da situação e não há necessidade de medidas mais drásticas", declarou. Mas o colunista do jornal La República Mirko Lauer, um dos mais importantes jornalistas peruanos, afirma que as autoridades consideram a decretação até mesmo de uma lei marcial, caso a agitação promovida pelos grupos de saqueadores prejudique a distribuição da ajuda. "Se, entre os desabrigados, o governo continuar sendo visto como o bandido do filme e a revolta da população converter-se em agitação, não haverá como evitar uma medida de força", afirmou. Na capital, Lima, porém, a ação do presidente Alan García em resposta à tragédia recebeu a aprovação de 72% da população, segundo pesquisa do Instituto Apoyo, publicada pelo jornal El Comercio. As medidas de García, que instalou na Base Aérea de Pisco um gabinete de emergência, recebeu elogios também de seu antecessor, o ex-presidente Alejando Toledo. Garantias O presidente do Peru prometeu reconstruir a cidade de Pisco que perdeu 85% de seus edifícios. Autoridades dizem que pelo menos 540 pessoas morreram em cidades do litoral sul peruano. Ele disse que o governo providenciará casas de dois dormitórios que as famílias poderão, depois, ampliar. O presidente está despachando diretamente da área do desastre desde quinta-feira. "Temos muitas casas e docas de pescadores para reconstruir." Longas filas surgiram espontaneamente pelas ruas de Pisco neste domingo, quando grupos estatais e privados passaram a estacionar caminhões para distribuir água, roupas e comida. A maior parte do processo parece ter ocorrido de forma ordenada. No sábado, uma multidão atacou um caminhão do Exército quando a carga de biscoitos, doces e papel higiênico se esgotou. No mesmo dia, García havia prometido restaurar a ordem "custe o que custar". O presidente declarou que a presença militar na cidade subiu de 400 para 1.200 homens. Dezenas de soldados patrulham a região central, armados com rifles de assalto, e não há mais notícias de tentativa de saque. Muito poucos suprimentos parecem já ter chegado às 80.000 pessoas que, estima-se, estão nas três cidades mais afetadas pelo terremoto. Segundo o governo, aviões que deixaram a área de desastre transportando feridos devem voltar carregados de suprimentos.

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