Choques na Bolívia matam ao menos 1 na fronteira com o Brasil

Novo incidente paralisa principal gasoduto e suspende fornecimento de 50% do gás natural que abastece o país

Agências internacionais,

11 de setembro de 2008 | 12h46

 Um funcionário da prefeitura opositora de Pando, que faz fronteira com o Acre, afirmou nesta quinta-feira, 11, que pelo menos uma pessoa foi morta a tiros durante os confrontos entre grupos leais ao presidente Evo Morales e opositores. Outros veículos de imprensa, que citam fontes extra-oficiais, afirmam que pelo menos três pessoas morreram nos choques na cidade de Porvenir, a 40 quilômetros da capital do departamento, Cobija. A informação surgiu no mesmo dia em que a Bolívia suspendeu pela metade o fornecimento de gás ao Brasil por causa dos danos causados a dois dutos por opositores de Evo, informou a empresa Transierra, que opera o gasoduto Brasil-Bolívia.  Veja também:Forças Armadas vigiarão dutos após ataques na BolíviaEnvio de gás da Bolívia ao Brasil cai pela metade Ex-presidente diz que não há risco de golpe Petrobras suspende operações em oleodutoEntenda os protestos da oposição na BolíviaEnviada do 'Estado' mostra imagens dos protestos na Bolívia Imagens das manifestações   A Bolívia vive nesta quinta o terceiro dia consecutivo de violência em várias regiões do país, todas controladas por opositores autonomistas que exigem a restituição de um imposto sobre o gás e o petróleo que antes era repassado para os governos dos departamentos bolivianos e são contra a nova proposta constitucional do governo. O episódio começou durante a madrugada, quando opositores realizaram uma emboscada contra camponeses leais a Evo que viajavam pelas proximidades de Cobija, no norte da Bolívia. Os choques persistiam por volta do meio-dia de hoje. Há informações de que a emboscada teria sido realizada por funcionários do governo local. O governador de Pando é Leopoldo Fernández, opositor de Morales. Nancy Texeira, representante do governo central, disse à emissora Erbol que três pessoas morreram nos choques ocorridos em Pando, um Estado situado na Amazônia boliviana. Hugo Mopi, porta-voz do governo de Pando, que faz oposição a Morales, disse por telefone à Associated Press que o morto era um opositor e informou que o choque ocorreu em um local a 30 quilômetros de Cobija, capital dessa província que faz fronteira com o Brasil, mais de 600 quilômetros ao norte de La Paz.  Corte de gás  Um novo incidente interrompeu totalmente as operações do principal gasoduto que transporta gás da Bolívia para o Brasil, segundo informou nesta quinta-feira a empresa que administra o gasoduto, Transierra. Em comunicado, a empresa afirmou que uma válvula de segurança na estação de Buena Vista, a 70 quilômetros de Villa Montes, foi "manipulada, gerando interrupção total do serviço que prestamos pelo GASYRB (gasoduto Yacuíba-Rio Grande)". "Atualmente, desconhecemos a forma como se efetuou essa manobra e se há danos", disse a Transierra. "Já mobilizamos pessoal para tomar as medidas necessárias."  Na quarta-feira, uma explosão em outro ponto do mesmo gasoduto teria reduzido em 3 milhões de metros cúbicos diários o envio de gás ao Brasil. Na nota desta quinta-feira, a Transierra afirmou apenas que "até esta madrugada a área ainda seguia em chamas, motivo pelo qual não pudemos ter acesso para avaliar os possíveis danos".  Em uma entrevista coletiva em Brasília, o ministro da Fazenda da Bolívia, Luis Alberto Arce, disse que as Forças Armadas bolivianas devem ser convocadas para resguardar os campos de petróleo. Arce denunciou uma "tentativa de golpe civil", conduzido por pequenos grupos que promoveram atos de "vandalismo" e de "terrorismo" nos últimos dias. "A polícia já está investigando os responsáveis pelos atos de vandalismo e terrorismo". Entre os terroristas, listou a União Juvenil Crucenhista. Arce insistiu que esses grupos são financiados e respondem a ordens, mas não identificou claramente de quem. Conforme argumentou, a onda de violência coincidiu com a chegada no país de um líder da oposição que vivia em Miami. Segundo Arce, embora o Estado de Sítio seja uma das alternativas constitucionais para a imposição da ordem no país, o governo boliviano resiste em decretá-lo porque submeteria toda a população do país a uma situação de emergência por conta de ações de grupos pequenos e regionais. Questionado sobre a resistência das Forças Armadas em reagir aos ataques civis às instalações do setor de gás e aos prédios públicos, por desconfiança de que o governo Morales não assumirá a responsabilidade pelas conseqüências, Arce insistiu que os militares "estão respondendo ao mandato do presidente". "As Forças Armadas vão participar do restabelecimento da ordem e da captura dos terroristas", declarou. O embaixador da Bolívia no Brasil, que participou da entrevista coletiva ao lado de Arce, em um hotel em Brasília, ressaltou que a Bolívia nunca descumpriu contrato de fornecimento de gás para o Brasil e que "atos terroristas não podem estar nas previsões de nenhum governo".  (Com Leonardo Goy, Denise Crispim Marin e Renata Miranda, de O Estado de S. Paulo, e BBC Brasil)

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