Cisão de golpistas hondurenhos facilitaria acordo

Percepção de que não há muito a perder com diálogo pode abrir divisões entre militares e civis

Ruth Costas, O Estado de S. Paulo

24 de setembro de 2009 | 08h27

Após quase três meses de boicote internacional, a coesão dos militares e de outros grupos que sustentam o governo de facto parece ser o ponto-chave nos possíveis cenários para o desfecho da crise em Honduras. Na terça-feira, o presidente deposto Manuel Zelaya declarou que está "falando com os militares" para conseguir apoio.

 

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"Temos informações de que na realidade ele está tentando comprar militares com dinheiro de (Hugo) Chávez", acusou, em entrevista ao Estado, Juan Ramón Martínez, colunista do jornal La Tribuna, que simpatiza com o governo de facto.

 

O cientista político panamenho Julio Yao, especialista em América Central, não descarta a possibilidade de que "algumas facções do Exército" apoiem Zelaya, apesar de ainda não terem força para se impor. "A chave do desfecho da situação está nas mãos do Exército", disse Yao, à agência de notícias France Presse.

 

O que pode causar divisões no movimento golpista, segundo as análises, não é a simpatia por Zelaya, mas a percepção de que a essa altura há pouco a perder com o diálogo.

 

Afinal, o Acordo de San José, solução proposta pela comunidade internacional, prevê que Zelaya só fique no poder por mais alguns meses. Em 29 de novembro, ocorrerão as eleições presidenciais e o líder hondurenho deve ceder o cargo para o vencedor em janeiro.

 

Em sua peregrinação pelo continente para obter apoio, Zelaya indicou que não insistiria no referendo sobre a reeleição e, em troca, obteve garantias de que, sem a normalização, as eleições não seriam reconhecidas em diversos países. Mudar de ideia causaria incômodo aos que o apoiam, como os EUA e, cada vez mais, o Brasil.

 

As projeções sobre os rumos da crise indicam as eleições como uma data-chave. Com a economia hondurenha castigada pelas sanções internacionais, analistas concordam que as negociações entre os extremos políticos do país terão de ocorrer cedo ou tarde. Na terça-feira, até o presidente de facto, Roberto Micheletti, admitiu que poderia dialogar se Zelaya reconhecesse a legitimidade da votação, mas não se indicou quando esse diálogo ocorreria.

 

"Se os golpistas conseguirem resistir até novembro, ainda que depois disso tenham de negociar para tentar dar legitimidade às eleições, Zelaya ficará em uma posição mais frágil, pois seu mandato acabará pouco depois", diz Wilfredo Lozano, ex-diretor-geral da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais. "O segundo cenário, de diálogo imediato, parece menos provável no momento, a não ser que haja um fato novo como a cisão no movimento golpista."

 

Enquanto a situação não se define, a possibilidade de uma escalada de violência é grande. "A questão é que Zelaya não tem meios para retomar o poder, mas o governo de facto também tem de evitar medidas extremas sob o risco de mais sanções", diz Lozano.

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