Coalizão de Lugo se prepara para definir governo paraguaio

Ex-bispo rompe 60 anos de colorados no poder; Chávez diz que recém-eleito negociará planos de cooperação

Agências internacionais,

21 de abril de 2008 | 10h20

O presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, disse nesta segunda-feira, 21, que está "serenamente contente" com o triunfo histórico das eleições de domingo, que acabou com a hegemonia de mais de 60 anos do Partido Colorado no poder. Segundo o jornal paraguaio ABC Color, Lugo disse que o gabinete do novo governo será integrado por pessoas idôneas e honestas, assinalando que haverá uma verdadeira mudança no país. O líder recém-eleito adiantou ainda que não será necessária afiliação partidária para ser funcionário público ou ocupar cargo de administração estatal.   Veja também  Lula contraria Lugo e diz que não negocia contrato de Itaipu  Lugo é eleito presidente do Paraguai  Multidão sai às ruas para comemorar vitória  Duarte admite responsabilidade por derrota governista  Rivais reconhecem vitória de Lugo  Chávez quer encontrar Lugo 'o mais rápido possível'  Vida dedicada ao sacerdócio    Enquanto comemorava a vitória na madrugada desta segunda, Lugo afirmou que espera começar logo a trabalhar nas reuniões internas com os representantes da sua aliança política para definir o novo governo. O ex-bispo católico que venceu com quase dez pontos de diferença a candidata governista, Blanca Ovelar, representa uma coalizão de vários partidos e movimentos sociais, que mescla liberais, socialistas, organizações campesinas, sindicais e estudantes. "Me sinto serenamente contente com o que aconteceu. Tenho uma grande gratidão com o povo paraguaio".   O editorial do principal jornal do país, o ABC Color, afirmou na edição desta segunda que "O povo derrotou quem o humilhou, o empobreceu e o traiu". "Afirmamos com convicção que hoje se enterra a degradante 'transição' e se inicia uma etapa de democracia genuína no Paraguai". Segundo a BBC, o presidente Nicanor Duarte Frutos, do Partido Colorado, destacou que essa foi uma "transição tranqüila". E ressalvou: "Numa democracia, a vitória e a derrota são provisórias".   Os presidentes da Argentina, Bolívia, Chile, Venezuela e Uruguai entraram em contato na noite passada com o ex-bispo paraguaio Fernando Lugo para felicitá-lo por sua vitória nas eleições presidenciais deste domingo, afirmou hoje o presidente eleito. Lugo, de 56 anos, acabou com 61 anos de hegemonia no poder do Partido Colorado, ao obter 40,82% dos votos, frente aos 30,72% da governista Blanca Ovelar e dos 21,98% do general reformado Lino Oviedo.   Segundo a chancelaria venezuelana, Lugo e Chávez concordaram em impulsionar a União Sul-americana e em se encontrar "o quanto antes", para conversar sobre planos de cooperação. O venezuelano reconheceu a "impecável jornada democrática que o povo paraguaio promoveu" nas urnas, o qual, segundo o presidente, "demonstra maturidade política alcançada pelo povo irmão sul-americano".   O ex-bispo, que é adepto da Teologia da Libertação e tomou cuidado para não ter sua imagem ligada a líderes populistas latino-americanos, como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, prometeu uma reforma agrária e quer renegociar os acordos energéticos que o país tem com Argentina e Brasil. "Os cidadãos humildes e simples são os responsáveis por esta mudança, para que nosso país não seja sempre lembrado por sua corrupção, por sua pobreza, e sim por sua honestidade, por sua eficiência", disse Lugo pouco depois de conhecer os primeiros resultados oficiais.   Relações com o Brasil   A promessa de Lugo de renegociar os acordos energéticos causou apreensão no Brasil e na Argentina, especialmente pela possibilidade de que aumentem os preços da eletricidade que o Paraguai vende em duas represas binacionais, no caso do Brasil, em Itaipu. De acordo com os termos do Tratado de Itaipu, assinado entre Brasil e Paraguai em 1973, a energia gerada pela usina deve ser dividida igualmente entre os dois sócios. Mas o Paraguai utiliza apenas cerca de 5% dessa energia, quantia que é suficiente para suprir 95% de sua demanda. O excedente é vendido - a preço de custo - ao Brasil, onde 20% da energia elétrica consumida vem de Itaipu.   A discussão em torno do tratado de Itaipu não é o único assunto que coloca o Brasil em destaque nesta campanha eleitoral no Paraguai. A forte presença de brasileiros na produção de soja e carne do Paraguai (estima-se que sejam 60% do total de produtores) é outro tema de destaque. Uma das críticas à lavoura de soja, repetida em diferentes setores no Paraguai, é a de que não gera emprego para os paraguaios.   A presença do Brasil nesta campanha política incluiu o destaque para a quantidade crescente de paraguaias que atravessam a fronteira para ter um filho no Brasil ou na Argentina. Essas mulheres fazem isso como uma forma de se radicar nesses países e ter mais oportunidades para elas e suas famílias. O último debate antes das eleições mostrou ainda uma reportagem com adolescentes que estudam em escolas no lado brasileiro da fronteira. Depois de cantar o Hino Nacional brasileiro, elas responderam que não querem ser paraguaias.   "Herança maldita"   Assim que tomar posse, em agosto, o novo presidente paraguaio terá de assumir a complicada herança de seus antecessores, que envolve problemas sociais - como altos índices de pobreza, infra-estrutura precária e uma enferrujada máquina estatal. Um dos principais desafios de Fernando Lugo será lidar com a questão dos paraguaios que abandonam o país para fugir da pobreza. Em média, 67 mil pessoas - o equivalente a mais de 1% da população - emigram para o exterior todos os anos, em busca de melhores condições de vida.   Deixar o país é uma das alternativas para não integrar o contingente de pobres, que representam 35% da população, segundo dados do Departamento Geral de Estatísticas e Censos. Desse total, 19,3% vivem na chamada "pobreza extrema". O dado, de 2007, mostra uma piora na situação em relação a 2005, quando o índice de pessoas vivendo nessa situação era de 15,46%.   Outra agravante é o fato de que quase metade da população paraguaia vive em áreas rurais, o que dificulta o acesso desses habitantes aos serviços médicos e ao sistema educacional. Para complicar, dos 64 mil quilômetros de estradas que cortam o país, somente 4 mil quilômetros estão asfaltados.   O PIB per capita - sem levar em conta o custo de vida - é de apenas US$ 1.928, o terceiro mais baixo de toda a América do Sul, atrás apenas de Bolívia e Guiana. No entanto, o índice é o mais alto da história do Paraguai e a expectativa é que neste ano ele ultrapasse US$ 2 mil. A economia paraguaia vem registrando um constante aumento do PIB, que no ano passado cresceu 6,4%. Para 2008, a estimativa do Ministério da Fazenda é de 5%. O crescimento está sendo estimulado principalmente pelo aumento da produção da soja.   Lugo também terá de enfrentar o problema da máquina estatal, que, desde a volta da democracia, não parou de crescer, alimentando um Estado clientelista. Entre 1989 e 2007, o número de funcionários públicos saltou de 80 mil para 240 mil (4% do total da população). Na semana passada, para conseguir mais apoio, o presidente Nicanor Duarte aumentou o salários do funcionalismo - uma carga adicional para a próxima administração.   (Com Ariel Palácios, de O Estado de S. Paulo)

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