Colômbia esteve perto de se retirar da Unasul, diz jornal

Ministro da Defesa afirma que Bogotá 'não se deixará tentar por joguinhos de guerra' dos vizinhos

16 de setembro de 2009 | 12h17

A Colômbia "esteve a um passo" de anunciar sua retirada da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), afirmou o jornal "El Tiempo", em reportagem publicada nesta quarta-feira, 16, disponível em seu site. Segundo o diário, a delegação colombiana avaliou se retirar do encontro de ministros da Defesa e das Relações Exteriores dos membros da Unasul, realizado na véspera em Quito, e considerou até abandonar a aliança, caso não houvesse "garantias suficientes para que se desenvolvesse um debate equilibrado". O texto do "El Tiempo" afirma que "a queixa não se dirigia tanto à presidência do foro, que está nas mãos do Equador, mas ao chanceler do Brasil, Celso Amorim". O enviado do jornal sustenta que os membros da delegação colombiana "pediram equanimidade" a Amorim.

Na reunião, os demais países não conseguiram de Bogotá uma "garantia formal" de que o acordo com os Estados Unidos não resultará em agressões militares nos territórios vizinhos. O encontro foi encerrado sem um documento final. Amorim se declarou contrariado com a "intransigência" da delegação colombiana. "Temos um problema muito grave, pois a Colômbia não percebe o incômodo que isso causa nos outros e não procura solucioná-lo", afirmou.

O ministro de Defesa da Colômbia, Gabriel Silva, disse ao "El Tiempo" que a reunião, para ele, não resultou em fracasso, pois "o país não se deixou impor uma agenda". Silva lamentou a "intransigência" de algumas delegações e reiterou que a Colômbia disponibilizará aos outros países o texto do tratado com Washington, logo que ele seja firmado. A Venezuela se mostrou na reunião o país mais crítico ao acordo. A delegação de Caracas chegou inclusive a falar em uma supervisão das bases onde haveria tropas norte-americanas, o que os colombianos rechaçaram.

A boa notícia, segundo o "El Tiempo", ficou por conta do encontro entre os ministros colombianos com seus pares do Equador. "Houve uma distensão importante", notou uma fonte. Colômbia e Equador estão com as relações diplomáticas rompidas desde que Bogotá lançou um ataque militar em território equatoriano em 1º de março do ano passado. No ataque morreu o então número 2 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Raúl Reyes, e mais 25 pessoas. Na época, o presidente equatoriano, Rafael Correa, condenou de forma "contundente" a invasão territorial.

 

"Joguinhos ameaçadores"

 

O ministro de Defesa da Colômbia, Gabriel Silva, afirmou nesta quarta-feira, 16, que o país tem um gasto militar destinado à sua segurança interna e não se deixará "tentar" por países vizinhos que adquirem "joguinhos ameaçadores" ou novas armas. A afirmação à rádio Caracol foi feita um dia depois do encontro da Unasul, em que Bogotá bloqueou a tentativa do grupo de estabelecer mecanismos de transparência para os acordos militares dos países da região.

 

Silva ratificou a posição oficial de Bogotá sobre os pedidos dos vizinhos para que o acordo de cooperação militar com os Estados Unidos, afirmando que o conteúdo será revelado uma vez que o convênio seja assinado e na medida em que outros países apresentem detalhes de seus pactos e compras de armas, como Brasil, Equador, Bolívia e Venezuela, que anunciaram recentemente pactos para compra de equipamentos desde tanques até aviões.

 

Bolívia e Venezuela criticaram a "intransigência" do governo colombiano em não revelar o texto do acordo aos vizinhos, motivo que impediu um consenso na cúpula de ministros em Quito na segunda-feira. "O gasto militar na Colômbia é um gasto que reflete o que o povo quer, acabar com a maldição dos sequestros, e é nisso que estamos gastando". O ministro não mencionou nenhum país especificamente e nem revelou as despesas militares anuais do país.

 

Silva disse que o país não descarta a possibilidade de deixar a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), caso o grupo mantenha a posição de evitar as discussões sugeridas por Bogotá. "Eventualmente, se este impasse continuar e não vermos preocupação pelo armamentismo, o tráfico de armas, o narcotráfico e o crime organizado, ficará claro que não há sensibilidade pelos temas colombianos, seríamos apenas convidados engessados e assim avaliaríamos a possibilidade" de sair, afirmou.

 

O ministro disse que os aspectos do acordo podem ser mostrados aos países da região, mas isto "dependerá de haver simetrias". Para ele, a reunião de ontem foi "tensa e difícil" e houve "complô contra a Colômbia, promovido por alguns países que têm interesse em falar de seus problemas e preocupações, mas não mostram sensibilidade em relação aos nossos". O ministro disse ainda que, apesar disso, Bogotá mantém a "esperança que o caminho possa ser encontrado" para que se discutam os temas propostos pelos colombianos.

 

Em declarações à Rádio Caracol, Silva também descartou a oferta do chefe de governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, para mediar o conflito que a Colômbia mantém com a Venezuela.

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