Colômbia pede à Europa mediação do conflito na América Latina

Vice-presidente Francisco Santos Calderón afirmou ao 'Estado' se reunirá com a UE nas próximas horas

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

03 de março de 2008 | 06h54

O governo colombiano vai se reunir nesta segunda-feira, 3, com membros da União Européia, em Genebra, para pedir mediação da entidade com o governo do Equador após a crise diplomática sem precedentes desencadeada entre a Colômbia e seus dois principais vizinhos, Venezuela e o Equador, após a morte de Raúl Reyes, número 2 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). O vice-presidente da Colômbia, Francisco Santos Calderón, afirmou ao Estado que a reunião ocorrerá nas próximas horas. Ele está na Suíça para reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU.   Veja também: Galeria de fotos da crise  Colômbia acusa Equador e Venezuela na Assembléia da ONU Fidel alerta para as 'trombetas da guerra' na América do Sul Colômbia pede desculpas e Equador expulsa embaixador Chávez diz que morte de número 2 das Farc foi ato 'covarde' Morte de Raúl Reyes não deve afetar negociações, dizem Farc Exército colombiano mata número dois das Farc Perfil de Raúl Reyes, o 'número dois' das FarcEntenda a crise entre Colômbia, Equador e Venezuela  Por dentro das Farc   Dê sua opinião sobre o conflito     O governo da Colômbia afirmou neste domingo ter encontrado informações sobre supostas ligações do governo do presidente do Equador, Rafael Correa, com as Farc em computadores que pertenciam a Raúl Reyes, porta-voz da guerrilha que foi morto em operação militar no sábado.  Em uma entrevista coletiva, o general Oscar Naranjo, diretor da Polícia Nacional colombiana, disse que os documentos encontrados nos computadores "permitem falar de um relacionamento estrutural das Farc tanto na Venezuela quanto no Equador", sendo que, no último caso, o relacionamento "está suportado por decisões oficiais do governo equatoriano".   As declarações sobre os supostos vínculos do Equador com a guerrilha foram feitas após a expulsão do embaixador colombiano em Quito. Além de expulsar o embaixador Carlos Holguín, Rafael Correa também enviou tropas para a fronteira com a Colômbia. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, já havia decidido fechar a embaixada da Venezuela em Bogotá e enviou dez batalhões de tanques para a fronteira entre os dois países.   "A situação é muito delicada e nessa crise não vamos, por enquanto, dar declarações mais detalhadas", disse Calderón ao Estado.     A decisão de Correa ocorreu pouco depois de receber uma nota da chancelaria colombiana com um pedido de desculpas pela entrada em seu território de helicópteros colombianos que recolheram o corpo do líder guerrilheiro morto além de alguns de seus pertences, entre eles seus computadores pessoais.  "O governo colombiano nunca teve a pretensão ou a disposição de desrespeitar, vulnerar a soberania ou a integridade da irmã República do Equador, de seu povo ou de suas autoridades, pelas quais professou, historicamente, afeto e admiração", continua o comunicado.   Reyes foi morto dentro do território equatoriano, a 1.800 metros da fronteira com a Colômbia. O ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, alegou, porém, que o ataque partiu do território colombiano e que o presidente equatoriano, Rafael Correa, foi informado da operação pelo presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.   Correios eletrônicos   Naranjo disse que a informação encontrada é "muito grave" e "afeta a segurança nacional" da Colômbia e que, por isso, esperava das autoridades equatorianas "respostas que tornem claros os vínculos das Farc em território equatoriano e particularmente com o governo do presidente Correa". O general se referiu a um documento de 18 de janeiro deste ano, segundo ele assinado por Reyes e dirigido ao secretariado das Farc, no qual fala de uma visita do ministro Larrea.   "Larrea, em nome do presidente Correa, tem interesse em oficializar as relações com a direção das Farc por intermédio do ministro da Segurança", diz uma parte do documento, segundo Naranjo. O general afirmou ainda que, no documento, Reyes afirma também que Larrea solicitou às Farc "um aporte para impulsionar a gestão de Correa na questão da troca de reféns". Segundo ele, isso poderia ser a entrega de um refém importante ou "algo que permita dinamizar seu trabalho político". Naranjo também leu um trecho no qual Reyes afirma que o governo equatoriano estaria disposto a trocar os comandos policiais e militares nas regiões com presença das Farc para afastar os oficiais hostis à guerrilha.   Quando perguntaram a Naranjo se os computadores de Reyes continham informações sobre outros governos, ele disse: "Estão aflorando diferentes dimensões desse relacionamento terrorista das Farc com outras personalidades, com outras instituições e com outros governos". Questionado especificamente sobre a Venezuela, ele respondeu que na análise preliminar das informações "evidentemente que se menciona o governo venezuelano e se menciona permanente o presidente Chávez".   Silêncio oficial   Até agora, o governo colombiano vem mantendo silêncio sobre as decisões de Chávez – que chamou o presidente colombiano, Álvaro Uribe, de "mafioso e paramilitar" - de fechar sua Embaixada e reforçar a fronteira.   Após os protestos do Equador e dos anúncios da Venezuela, Uribe encabeçou uma longa reunião de gabinete, com a presença dos altos comandantes militares. Apesar do silêncio oficial da Colômbia, diferentes partidos políticos, incluindo os opositores a Uribe, expressaram sua solidariedade ao presidente colombiano.   O ex-presidente César Gavíria, chefe do opositor Partido Liberal, disse que seu grupo político "reclama do governo da Venezuela respeito ao presidente Álvaro Uribe". "Ele é o presidente constitucional da Colômbia e goza de respeito e aceitação dos cidadãos de nossa coletividade", afirmou. Outro dirigente do Partido Liberal, Alfonso Gómez Méndez, afirmou que Chávez "tem mais peso na língua do que nos fatos".   O ex-candidato presidencial Carlos Gavíria, presidente do esquerdista Pólo Democrático Alternativo (PDA), afirmou que "não é possível que se lancem impropérios, injúrias ou acusações graves contra o presidente a partir da Presidência de um país, e de um país vizinho".   "Medidas desproporcionais"   Em declarações à BBC, o analista Alfredo Rangel, diretor da Fundacão Segurança e Democracia, disse que tanto o fechamento da embaixada quanto o envio de batalhões de tanques à fronteira com a Colômbia "são medidas absolutamente desproporcionais e injustificadas".   Rangel, especialista em segurança, disse que não houve incidentes militares entre a Colômbia e a Venezuela que justifiquem essa decisão e acrescentou acreditar que Chávez tenta colocar em ação o pacto de solidariedade militar anunciado recentemente pelos governos de Venezuela, Nicarágua, Dominica e Equador. "Acho que a decisão de Chávez é para ganhar o apoio desses países", disse Rangel.   Segundo o especialista, em caso de um conflito armado, a Venezuela teria "mais poder aéreo estratégico do que a Colômbia, por possuir mais aviões de combate e também maior força naval", mas que a Colômbia tem uma força terrestre maior e uma grande frota de helicópteros, o que dá uma grande mobilidade às suas tropas.   O cientista político venezuelano Oscar Reyes, da Universidade Andrés Bello, acredita que as declarações de Chávez são mais retórica de confronto do que ameaça real. "Uma guerra contra a Colômbia seria suicídio político para Chávez", afirmou Reyes, por telefone, ao Estado. "É provável que as ameaças continuem nos próximos dias, mas dificilmente alguma bala será disparada." De acordo com ele, se houvesse guerra, a Colômbia venceria por causa da experiência que adquiriu com seu conflito interno. Reyes afirma que as ameaças de Chávez não passam de uma manobra para ocultar o fracasso que tem sido sua gestão. "Estamos em ano de eleições estaduais e municipais, e o partido de Chávez está mal nas pesquisas."   (Com Renata Miranda, de O Estado de S. Paulo, BBC Brasil e agências internacionais)

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