Com dinheiro do paciente, médicos de Caracas buscam remédios em farmácias

Funcionários de hospitais, doentes e seus parentes tentam contornar escassez de medicamentos e insumos médicos percorrendo estabelecimentos

Guilherme Russo, enviado especial, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2014 | 03h00

CARACAS - É difícil encontrar na Venezuela uma família que não passe ou não tenha passado por problemas quando algum de seus parentes adoece ou precise ser internado em hospitais - públicos e particulares - desde que o presidente Nicolás Maduro se tornou presidente, em abril de 2013. 

A escassez de remédios e insumos de saúde atinge, segundo a Federação Médica Venezuelana, quase 100% das unidades de saúde do país e medicamentos têm desaparecido das prateleiras das farmácias.

Para contornar a situação, pacientes têm sido transferidos para hospitais que tenham o material necessário para o tratamento, funcionários da saúde pública têm percorrido estabelecimentos vizinhos para encontrar o que os pacientes necessitam quando não há nos locais em que trabalham e os doentes, assim como seus parentes e amigos, procuram os medicamentos em diversas farmácias até encontrá-los - ou não. 

Há também quem apele para remédios vendidos no exterior, por meio da internet ou de conhecidos que vivam fora da Venezuela. “O remédio que minha mãe tem de tomar para o coração não se consegue, simplesmente. Mandam para ela da Espanha, graças a Deus”, disse ao Estado a professora Ysmenia Yamin, de 61 anos, enquanto esperava que sua mãe passasse por exames cardiológicos no Hospital de Clínicas Caracas.

A comerciante Rosa Virginia Cárdenas, de 77 anos, afirmou que “ninguém consegue o que precisa”. “Eu preciso de vitamina B12, mas não consigo, e de cálcio, para os ossos, mas não encontro em nenhum lugar. Estamos mal. Votei por (Hugo) Chávez e já havia escassez, mas não tanto como agora”, disse.

O transportador Orlando Barrera, de 59 anos, afirmou que há duas semanas teve febre chikungunya (doença transmitida por mosquitos, que causa dores, náusea e erupções cutâneas). “No começo, encontrei os remédios, mas depois não”, afirmou. Chavista convicto, Barrera afirmou que, em seu país “não há escassez, o que há é contrabando”, repetindo uma das justificativas que Maduro tem dado para a falta de medicamentos e insumos médicos. 

“Sempre tenho de percorrer muitos lugares de Caracas para encontrar o remédio (para hipertensão) que preciso. E essa situação é generalizada. Os chavistas fazem coisas boas nos projetos sociais, mas têm suas falhas também”, afirmou o funcionário público aposentado Eduardo Rojas, de 64 anos.

A enfermeira Yaceni Bolívar, de 41 anos, funcionária do Hospital Universitário de Caracas há 22 anos, disse que “falta muita coisa” na unidade de saúde - pública - do município caraquenho de Libertador. “Muitas vezes, os médicos vão a outros hospitais tentar conseguir o que falta ou vão a farmácias com o dinheiro do paciente para comprar o que ele precisa.”

“Mandamos vários pacientes para outros hospitais quando não temos como dar a eles a atenção necessária”, disse a enfermeira do Hospital Universitário María Gabriela Ochoa.

Na segunda-feira, o ministro de Saúde Francisco Armada reconheceu que têm havido falhas no fornecimento de remédios, afirmando que o governo buscava detectar o motivo. O ministro disse esperar que as medidas que o governo vem tomando para combater o contrabando na fronteira com a Colômbia diminuam a escassez. O setor afirma que falta 60% dos medicamentos consumidos na Venezuela e 85% dos insumos hospitalares e atribui o problema à não concessão de divisas estrangeiras para a importação dos produtos responsáveis por 90% do abastecimento desse mercado.

Na terça-feira, a Associação de Clínicas e Hospitais da Venezuela pediu que uma “emergência” seja decretada no país em razão dessa falta, que atinge, segundo a entidade, ao menos 20 especialidades médicas.

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