Com retórica contra EUA, Venezuela fica cada vez mais isolada

Outros aliados do país, como Bolívia e Equador, também já demonstraram interesse na colaboração com os norte-americanos

DIEGO ORÉ, REUTERS

17 de dezembro de 2014 | 22h03

CARACAS - Depois da surpreendente aproximação entre Cuba e Estados Unidos anunciada nesta quarta-feira,17, para normalizar as relações diplomáticas, a Venezuela deve perder seu principal aliado na retórica contra os norte-americanos na América Latina.

Desde que assumiu a Presidência do maior país exportador de petróleo da América do Sul em 1999, o falecido Hugo Chávez começou uma corrida para compensar a influência dos EUA na América Latina estimulando a criação de grupos regionais, como a Unasul e a Alba, que excluem os norte-americanos.

Mas sem a personalidade forte de Chávez, essas organizações foram perdendo força e, à medida que a crise econômica abraça a Venezuela, sua influência se faz sentir cada vez menos.

Não só Cuba optou por uma atitude mais conciliatória com o norte, mas outros aliados da Venezuela, como Bolívia e Equador, têm demonstrado, apesar do discurso combativo, interesse em trabalhar em estreita colaboração com os EUA.

Poucos dias atrás, por exemplo, o chanceler boliviano, David Choquehuanca, disse que tentou organizar uma reunião entre o presidente da Bolívia, Evo Morales, e seu homólogo norte-americano, Barack Obama, para melhorar as relações entre os dois países, suspensas desde a expulsão, em 2008, do embaixador norte-americano em La Paz.

E, apesar de sua retórica afiada contra os EUA, o presidente do Equador, Rafael Correa, não tem dado passo em falso que possa afetar a relação econômica com seu maior parceiro comercial.

Mesmo a Nicarágua, onde Washington apoiou na década de 1980 aqueles que lutaram contra os sandinistas que hoje estão no poder, duplicou o seu comércio bilateral com os EUA desde que o ex-guerrilheiro Daniel Ortega assumiu o cargo em 2007.

"Toda a América vai em uma direção, Nicolás não sabe para onde vai, esta é a dura realidade que cabe aos venezuelanos, mas vamos mudar isso", disse o líder da oposição, Henrique Capriles, em sua conta no Twitter. "O único país nesta situação é o nosso." 

Ameaças. Mas a Venezuela tem ido contra a correnteza. Durante as três décadas de governo socialista ameaçou, várias vezes, cortar o fornecimento de petróleo aos EUA, seu principal mercado de exportação.

Embora nunca tenha cumprido sua ameaça, o país diversificou seu mercado e cada vez mais envia mais barris de petróleo à China e à América Central em detrimento dos EUA.

Para o analista político Luis Enrique Alcalá, a aproximação entre Cuba e EUA também pode facilitar uma eventual diminuição das diferenças entre Washington e Caracas.

"Mas por sua postura socialista, revolucionária, não será fácil para Maduro adotar um papel mais conciliatório", disse ele.

Desde 2008, quando Chávez expulsou o embaixador dos EUA, os dois países não têm chefes diplomáticos e as suas relações estão no menor nível. E as sanções que Obama pretende impor a autoridades venezuelanas por supostas violações de direitos humanos poderão ser a gota d'água.

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