Comandante da missão brasileira no Haiti denuncia corrupção

General Carlos dos Santos Cruz pede mecanismo de controle para combater desvio de recursos internacionais

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

19 de março de 2009 | 16h57

O comandante das tropas de paz da ONU no Haiti, o general brasileiro Carlos dos Santos Cruz, denunciou a corrupção com recursos internacionais e alerta que um mecanismo de controle precisa ser colocado em funcionamento para evitar os desvios. O general ainda alertou que a crise financeira internacional ameaça os avanços obtidos no Haiti e pede que as doações sejam mantidas.

 

Segundo ele, sua missão cumpre seu papel e os índices de criminalidade no Haiti já é quatro vezes menor que a do Brasil. Ele só não sabe quando é que o Brasil poderá sair do Haiti. "Hoje, o Haiti não vive mais um problema militar. O país vive um problema político", afirmou ao Estado o general, que assumiu o comando no início de 2007. A Missão de Paz da ONU no Haiti é comandada pelo Brasil. Nesta semana, o general está participando de reuniões na ONU em Genebra.

 

"O grande risco do Haiti não é a falta de segurança. A ameaça é na área política, social e econômica, que pode voltar a gerar violência. Mas a realidade é que hoje não é a violência que está impedindo a governança. Hoje, é a falta de resultado econômico e social que ameaça gerar nova violência", alertou.

 

"Os militares resolvem alguns aspectos do problema, mas não tudo", apontou. Na avaliação do militar brasileiro, a corrupção tem sido um obstáculo sério. Por ano, o Haiti recebe cerca de US$ 1 bilhão em doações internacional. "O problema não é só garantir que o dinheiro chegue ao país. O problema é de otimizar e como aproveitar da melhor maneira esses recursos", disse.

 

Por anos, a chancelaria brasileira alegou que a comunidade internacional precisava garantir recursos ao Haiti para que a missão de paz desse resultado. Para o general, o controle do dinheiro também precisa ser aperfeiçoado. "O aproveitamento do dinheiro precisa ser reavaliado", defende. "Precisamos analisar para saber qual é a perda desse dinheiro nos caminhos administrativos. Há uma perda grande. O volume de dinheiro é grande, mas não há o impacto social no final da linha", continuou.

 

Ele defende a criação de um mecanismo para garantir a transparência na distribuição dos recursos. "Só vamos ter dinheiro se tivermos credibilidade. Não adiante só pedir dinheiro", disse. Outra proposta é de que a corrupção com recursos internacionais seja classificada como "um crime internacional" e que tribunais fora do país de destino do dinheiro possam julgar os suspeitos.

 

"Precisamos criar mecanismos para proteger esse dinheiro", afirmou. O comandante evitar identificar o alvo de suas críticas. "Mas precisamos garantir que a corrupção com dinheiro de ajuda humanitária seja classificado como crime internacional, para inibir e colocar aqueles que usam o dinheiro expostos ao processo internacional", defendeu. Nos bastidores, ele também já alertou o governo brasileiro do fenômeno.

 

CRISE

 

Outra ameaça para o Haiti é a crise internacional, secando as doações internacionais. "Hoje, o Haiti ainda vive de doação. 65% do orçamento do governo vem de recursos do exterior", disse o comandante. "Se isso acabar ou for reduzido, há sérios riscos", disse. "A comunidade internacional precisa manter esse fluxo."

 

Carlos dos Santos Cruz prevê que o Brasil terá de permanecer no Haiti ainda por "alguns anos", mas admite que ainda não sabe quanto tempo será necessário. "Minha previsão é de que precisamos ficar pelo menos até 2011, quando há eleições no Haiti. Isso é o mínimo", afirma.

 

Ele destaca que a crise e a corrupção poderiam ameaçar os avanços na área de segurança. "Se a população não ver avanços em suas vidas, o processo pode ser ameaçado", disse. Os dados da Missão de Paz da ONU apontam que a taxa de criminalidade no Haiti é de 5,5 assassinatos por cada 100 mil habitantes por ano. "Essa taxa é bem menor que a do Brasil, Jamaica, México ou os vizinhos da República Dominicana", afirmou o general.

 

No Brasil, a taxa é de 22 assassinatos, contra 25 na República Dominicana e 30 no México. Há cinco anos, a média de assassinatos no Haiti superava a marca de 30 "Precisamos ficar mais. Mas precisa haver um esforço na área política. Essa é a grande chave no momento", alertou o comandante.

 

PACOTE

 

Da parte do governo brasileiro, a decisão do Palácio do Planalto foi a de destinar o maior volume de recursos já dado por um país ao Haiti entre 2009 e 2011. No total, o Brasil vai destinar US$ 12 milhões para 40 programas sociais no Haiti.

 

"Uma fazenda modelo será inaugurada pela Embrapa no País nesta semana", afirmou Marco Farani, diretor da Agência Brasileira de Cooperação. No total, a agência espera um orçamento de R$ 40 milhões para 2009 para suas atividades pelo mundo, uma gota d´água comparado aos recursos de US$ 7 bilhões do Japão.

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