Confronto entre índios e policiais deixa um morto no Equador

Indígenas protestam contra leis que estimulam extração de suas terras; Correa os considerou 'infantis'

Agência Estado e Associated Press,

01 de outubro de 2009 | 12h38

O governo do Equador e índios amazônicos do país trocaram acusações, nesta quinta-feira, 1º, por um confronto no sul equatoriano que segundo as autoridades pelo menos um indígena morto. As autoridades confirmam também pelo menos 40 policiais e nove índios feridos no incidente.

 

Os indígenas equatorianos têm protestado contra leis que, na opinião deles, encorajariam a extração de petróleo e minérios de suas terras. O presidente Rafael Correa qualificou os indígenas como "infantis" pelo fato de não aceitarem a nova legislação, que não prevê consultas aos indígenas sobre esses projetos.

 

O confronto ocorreu na quarta-feira, perto do rio Upano, província de Morona Santiago. O incidente lembrou um confronto similar ocorrido em junho, no vizinho Peru, no qual pelo menos 33 pessoas morreram quando a polícia rompeu uma barreira de indígenas protestando contra decretos do governo.

 

"Grupos tremendamente violentos, armados com espingardas e rifles, esperaram a polícia e recebeu ela a tiros", disse Correa durante entrevista coletiva no fim da quarta-feira.

 

A Federação Indígena Amazônica do Equador (CONFENAIE) afirmou que 500 policiais provocaram a violência, ao atacar indígenas Shuar que bloqueavam rodovias em protesto por novas regras sobre os recursos naturais.

 

A CONFENAIE afirmou em comunicado que dois indígenas morreram e nove ficaram feridos a tiros. A entidade afirma que o governo de Correa "tem sangue em suas mãos" e prometeu ação legal internacional para impedir violações aos "direitos coletivos e humanos" dos indígenas.

 

O ministro da Justiça e Direitos Humanos, Gustavo Jalkh, disse que os policiais haviam sido feridos por armas. Segundo ele, a polícia utilizou "força progressiva" para encerrar um bloqueio em uma rodovia, mas o ministro negou que eles tivessem disparado armas.

 

Um líder da poderosa confederação nacional indígena, CONAIE, Humberto Cholango, declarou uma "mobilização permanente". Segundo ele, os índios Shuar "são contra a lei sobre mineração".

 

Correa é um popular presidente de esquerda, mas foi alvo de críticas dos indígenas - 35% dos 14,5 milhões de equatorianos - ao chamá-los de "minorias infantis" por eles se oporem às novas leis sobre mineração e gerenciamento de água. Eles temem que com isso perderão a posse de suas terras ancestrais.

 

As leis ainda precisam passar na Assembleia Nacional, controlada pelos governistas. A CONAIE lançou um protesto nacional na segunda-feira contra as leis, mas cancelou a iniciativa pela baixa adesão. A federação amazônica continua com seus bloqueios de rodovias.

 

Os Shuar dominam as florestas do sudeste do Equador. Eles oferecem muita resistência à exploração do petróleo na área desde seu início, nos anos 1970. Vários grupos indígenas na Amazônia, liderados pelos Shuar, criaram a CONFENIAE em 1980.

 

A federação equivalente no Peru organizou protestos que terminaram com a repressão das forças oficiais em junho, em Bagua. Os indígenas da Amazônia peruana protestavam contra um pacote de decretos que permitiriam mais investimentos na área, de autoria do governo conservador de Alan García. Pelo pacote, as terras indígenas poderiam ser mais exploradas nos setores de petróleo, mineração e extração de madeira.

 

Nesta quinta-feira, o grupo ambientalista Amazon Watch pediu uma investigação completa sobre a violência no Equador e afirmou que isso indicava um padrão na região, onde os governos não obteriam o apoio dos moradores da área para iniciativas do tipo.

 

A CONAIE rompeu com o governo Correa, quando ele se recusou a garantir aos indígenas poder de veto em concessões para companhias que desejam explorar os recursos naturais do país, de acordo com a Constituição aprovada no ano passado. Os indígenas também estão descontentes com o que consideram planos do governo para privatizar recursos como a água, ainda que Correa negue ter tais intenções.

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