André Dusek/AE
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Constrangido, Lula lamenta morte de opositor cubano

Presidente se encontrou com Fidel e evitou comentar violações de direitos humanos em Cuba

Tânia Monteiro, de O Estado de S. Paulo,

24 de fevereiro de 2010 | 21h16

Ao lado do presidente de Cuba, Raúl Castro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a quarta-feira, 24, tentando esquivar-se de comentar a morte, na véspera, do dissidente cubano, Orlando Zapata Tamayo - que estava preso e em greve de fome por 85 dias. Só à noite, após a insistência de jornalistas, o brasileiro limitou-se a "lamentar profundamente" o desfecho do protesto do opositor.

 

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Lula, que chegou a Havana quase na mesma hora do anúncio da morte de Zapata, evitou também emitir qualquer tipo de declaração sobre denúncias de violações de direitos humanos no país, sob a justificativa de que não se intrometeria em assuntos internos de Cuba. Raúl, por seu lado, lamentou a morte do ativista e responsabilizou os EUA por ela. O cubano disse-se disposto a conversar com Washington sobre "tudo", mas em igualdade de condições.

 

Pressionado por repórteres, Lula disse não ter recebido uma carta de grupos de direitos humanos que pedia uma reunião dele com dissidentes. Um dos grupos é liderado por Oscar Chepe, representante dos presos políticos, que pretendia pedir a interferência de Lula pela libertação de mais de 200 detidos.

 

O assessor internacional do presidente, Marco Aurélio Garcia, disse que a carta não chegou a Lula nem houve pedido de audiência. "Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro", declarou. O governo evita abordar questões delicadas de países que considera amigos.

 

Pela manhã, Lula e Raúl se reuniram a 50 quilômetros de Havana, em visita ao Porto de Mariel, cujas obras serão realizadas pela construtora brasileira Odebrecht. Coube a Raúl a iniciativa de se dirigir à imprensa. "Eu já imagino a primeira (pergunta): o homem que morreu em greve de fome", ironizou. "Lamentamos muito. Ele (Zapata) foi sentenciado a 3 anos por ter causado problemas e foi levado aos nossos melhores hospitais. Morreu. Nós lamentamos muito", disse.

 

Em seguida, afirmou: "Em meio século, não assassinamos ninguém aqui. Aqui ninguém foi torturado." E prosseguiu: "Houve tortura na Ilha de Cuba, sim senhor, mas na base de Guantánamo, que não é nosso território."

 

Questionado pelo Estado de que não é isso que dizem as entidades de direitos humanos, Raúl reagiu: "Fale para eles que discutam conosco direitos humanos em igualdades de condições e vamos ver o que sai. Quem controla a imprensa? Vocês são jornalistas e sabem disso. Quando escrevem algo que não convém ao dono o que acontece? Desde que um tal de Guttemberg inventou a imprensa, só se publica o que quer o dono da imprensa."

 

Mais tarde, Lula se encontrou com o líder Fidel Castro, na residência dele. Segundo os assessores do presidente, a visita durou mais de uma hora e Lula encontrou Fidel "recuperado" e "excepcionalmente bem". Segundo relato de Lula a assessores, a situação de Fidel hoje é muito diferente da que ele encontrou em 2008, quando o visitou em uma casa de repouso.

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