Construtora indenizará família de brasileiro morto no Iraque

Após desentendimentos, companhia Norberto Odebrech e família de engenheiro morto em 2005 fazem acordo

Alexandre Rodrigues, de O Estado de S. Paulo,

16 de abril de 2008 | 20h52

Depois de muitas dificuldades na negociação com a Construtora Norberto Odebrecht, a família do engenheiro João José de Vasconcellos Júnior conseguiu fechar neste mês um acordo de reparação financeira pelo seqüestro e morte do brasileiro no Iraque, em 2005. Vasconcellos liderava, a serviço da Odebrecht, a reforma de uma usina termelétrica em Beiji, no norte do Iraque. Ele foi levado por rebeldes quando se deslocava para o aeroporto de Bagdá.   No final do ano passado, o filho do engenheiro, Rodrigo Vasconcellos, revelou ao Estado o desentendimento em torno de um seguro de vida que a Odebrecht queria que a família recebesse abrindo mão de qualquer outro tipo de indenização. O valor era considerado menos de 50% do que os Vasconcellos pleiteavam.   O filho do engenheiro, Rodrigo, e a viúva, Tereza Vasconcellos, confirmaram que fecharam um acordo com a empresa no qual receberam uma indenização menor do que a que julgavam adequada, mas não quiseram revelar o valor. "Tenho até vergonha de falar", afirmou Tereza, sem esconder a insatisfação da família com o tratamento recebido pela Odebrecht. O montante será dividido entre Teresa, os três filhos e os pais do engenheiro, que vivem em Juiz de Fora, em Minas Gerais.   Segundo Rodrigo, a negociação foi difícil e a família só aceitou receber menos para evitar uma disputa judicial que poderia se arrastar por anos. "Por mais que para a empresa seja só uma ação judicial, para a gente é uma forma de botar valor na vida do meu pai. E se a vida do meu pai vale aquilo ali (o valor definido no acordo), não vale nada", afirmou Rodrigo. "A gente já foi para a negociação perdendo. No dia em que meu pai desapareceu, perdemos tudo. Não pedimos nada além do que prevê a legislação brasileira. Não quisemos chantagear a empresa", afirmou.   Avessa a entrevistas, Tereza contou ao Estado que ela e os filhos optaram por um acordo para que a família pudesse, enfim, encerrar um ciclo e iniciar projetos pessoais. "Estávamos cansados", contou. Quando desapareceu, João era o único responsável pelo sustento da família, que vivia num apartamento de classe média alta da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. A família continuou vivendo do salário do pai, mantido pela Odebrecht após alguns desentendimentos, até junho de 2007, quando o corpo do engenheiro foi localizado no Iraque e sepultado em Juiz de Fora.   Negociação   Segundo os Vasconcellos, apesar de terem ouvido do presidente da construtora, Marcelo Odebrecht, que tudo seria feito para favorecer a família, após o enterro o caso foi entregue a um advogado especializado em redução de custos. A todo o tempo, os emissários da empresa tentaram tratar a morte do engenheiro como um acidente de trabalho comum. "Tentaram generalizar para sair mais barato", resume Rodrigo.   "Não foi uma coisinha, um caso comum. O João não atravessou a rua e foi atropelado. Eu não vi o João morrer. Disseram que ele morreu. Aí chegou uma caixa e disseram que era ele", argumenta Tereza, que se diz decepcionada com a empresa. Para ela, o marido errou ao embarcar para o Iraque confiando na construtora. "João morreu amando, confiando na empresa. Não valeu a pena o sacrifício", diz a viúva, que chegou a dizer ao presidente da empresa, numa reunião tensa, que o marido foi "burro" ao ter aceitado a missão no Iraque.   Para Rodrigo, o pai confiava na segurança oferecida pela empresa e acreditava que sua família seria muito bem amparada se algo lhe acontecesse. "Se fosse por outra empresa, ele não iria", disse.   Vasconcellos trabalhou na Odebrecht por 22 anos. Procurada pelo Estado, a Odebrecht informou que o acordo foi satisfatório para as duas partes e que não comentaria os detalhes da definição da indenização por se tratar de "tema de foro íntimo da família Vasconcellos".   Fortalecida por sessões de psicoterapia, Tereza só se refere ao marido no presente, como se ele estivesse vivo. Somente há pouco tempo conseguiu se desfazer das roupas do marido. "Ele continua aqui, vivo, dentro de cada um de nós. Os meus filhos vivem fazendo planos para mim. Eu faço planos, mas antes meu projeto era longo. Agora, ficou curtinho. Vou vivendo cada dia", conta.

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