Correa diz que irá 'até as últimas conseqüências por soberania'

Na chegada ao Brasil, presidente do Equador afirma que o colombiano Alvaro Uribe 'é um risco para a região'

04 de março de 2008 | 23h09

O presidente do Equador, Rafael Correa, manteve o tom de fortes críticas ao governo da Colômbia durante a entrevista coletiva dada na noite desta terça-feira, 4, depois de sua chegada em Brasília. "A minha pátria foi agredida por um governo canalha", disse. "Fomos vítimas de um ato bélico, uma provocação de guerra e vamos às últimas conseqüências em defesa da nossa soberania", emendou. Para Correa, a ação do Exército colombiano em território equatoriano foi uma "ofensa máxima aos equatorianos".  Veja também:Dê sua opinião sobre o conflito   Por dentro das Farc Entenda a crise entre Colômbia, Equador e Venezuela  Histórico dos conflitos armados na América do Sul   Farc tentavam obter material radioativo, diz Colômbia Venezuela anuncia fechamento da fronteira com a ColômbiaLula pede investigação da OEA sobre crise Colômbia-EquadorAnálise: 'É possível que as Farc se desarticulem'   Ouça relato de Expedito Filho, enviado especial ao Equador   A crise entre Colômbia, Equador e Venezuela começou depois que o Exército colombiano atacou guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionária da Colômbia (Farc), causando a morte do número dois das Farc, Raúl Reyes. Nesta terça, Correa deu início a uma viagem diplomática a cinco países para discutir a crise entre Equador, Col^^ombia e Venezuela. Na quarta, ele terá uma reunião, às 10 horas, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Correa afirmou que o Equador "não quer a guerra", diferentemente do presidente colombiano. "Estamos aqui em busca de uma solução pacífica, mas não vemos muita chance por se tratar de um presidente farsante que tem as mãos manchadas de sangue. Uribe não quer a paz, quer a guerra. Foi uma ofensa por parte dele", afirmou Correa. Solução O presidente equatoriano deu três condições para uma solução diplomática que evite a guerra: condenação expressa da comunidade internacional, sobretudo de organismos multilaterais como a ONU e a OEA; um pedido de desculpas do governo colombiano e um compromisso explícito de que não voltará a praticar esse tipo de agressão. Segundo ele, a Colômbia premeditou os ataques ao país para prejudicar a libertação de reféns das Farc, inclusive a da franco-colombiana Ingrid Bettancourt. "A Colômbia premeditou o ataque para atrapalhar a libertação de Ingrid. (O presidente colombiano, Álvaro) Uribe sabia que tentávamos libertar reféns", afirmou o chefe de Estado equatoriano. Ele negou que seu governo tenha dado apoio às Farc e disse que nos últimos anos foram desmantelados 42 acampamentos da guerrilha colombiana ao longo da fronteira do seu país. Correa declarou, ao Jornal da Globo, que a fronteira entre os países da América do Sul "é porosa" e, por isso, não é difícil que haja bases das Farc em países como Venezuela, Equador e, até, no Brasil.  O presidente equatoriano agradeceu a postura que o governo brasileiro tomou em relação aos ataques. "Tenho que agradecer a postura firme e ética do governo brasileiro e do presidente Lula". Segundo Correa, apesar de pequeno, o Equador é "íntegro, igual ao Brasil".   Correa será cobrado por Lula Na reunião desta quarta-feira, 5, Correa ouvirá de Lula que tem razão no embate com a Colômbia. Ao mesmo tempo, Lula vai fazer uma cobrança a Correa: lembrará que o Equador é de paz e que, por isso mesmo, precisa ficar longe das Farc. Caso contrário, pode perder a razão que hoje o assiste. Esse será o tom da conversa, que ocorrerá às 10 horas, no Palácio do Planalto, de acordo com informação de um auxiliar do presidente Lula. Para o Brasil, o direito internacional tem de ser preservado a qualquer custo, o que significa condenar a incursão das forças colombianas no território equatoriano. Para o auxiliar do presidente, a invasão das Forças Armadas colombianas foi um "caso pensado". Por um motivo: porque aconteceu duas vezes; primeiro, no combate com as Farc; em seguida, para a busca de corpos e apreensão de equipamentos, entre eles muitos computadores. A conversa de Correa com o presidente Lula é a segunda etapa de um périplo do presidente do Equador em busca de apoio na sua disputa com a Colômbia. A primeira parada do chefe de Estado equatoriano ocorreu no Peru. Teve um significado forte em política internacional. Há uma década, Equador e Peru ainda viviam uma guerra por conflitos de fronteiras. A paz foi patrocinada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Por isso, depois da parada no Peru, Correa decidiu vir ao Brasil. A expectativa das autoridades brasileiras é que tanto o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, quanto o seu colega do Equador, Rafael Correa, vão continuar a se estranhar por alguns dias. Depois, vão baixar o tom das declarações e acabarão por se recompor, porque esse é o caminho natural dos países da América do Sul. A torcida do Brasil é para que Uribe faça um segundo pedido de desculpas ao Equador, agora sem as justificações para a ação de combate aos guerrilheiros das Farc. Se isso ocorrer, raciocinam as autoridades brasileiras, será mais fácil fazer cobranças ao presidente equatoriano daqui para a frente. Será possível fazer a Rafael Correa a pergunta: afinal, o que faziam tropas das Farc dentro do território do Equador? Isso, na opinião dos brasileiros, no mínimo constrangerá Correa, que poderá evitar novos acampamentos do grupo dentro do território equatoriano. Texto alterado às 0h25 para acréscimo de informações. (Colaborou Vannildo Mendes, de O Estado de S. Paulo)

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