REUTERS/Henry Romero
REUTERS/Henry Romero

Crime tira um mexicano do mapa a cada duas horas

Parentes de desaparecidos investigam casos por conta própria e se tornam um retrato da ausência do Estado e da falência da segurança pública no país

Cristiano Dias, enviado especial, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2018 | 04h00

GUADALAJARA- Em 17 de janeiro de 2011, José Luis Arana Aguilar, de 34 anos, saiu de carro para encontrar o irmão e desapareceu. Sua mãe, Guadalupe Aguilar, foi avisada por telefone, duas horas depois. Lupita, como é conhecida, percorreu três vezes o caminho que o filho faria, conversou com as pessoas na rua, mas ninguém viu nada. 

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Quando percebeu a gravidade do caso, ela recorreu à polícia de Guadalajara. “Eles me disseram que a denúncia só poderia ser aberta 72 horas após o desaparecimento. Mas se dispuseram a abrir um inquérito para investigar o roubo do carro”, contou. “No México, um veículo é mais importante do que meu filho.”

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O caso de Lupita, que busca o filho há mais de sete anos, é o retrato da ausência do Estado mexicano. Em abril, segundo o registro nacional de pessoas extraviadas, o México tinha 37.435 desaparecidos forçados, cerca de 75% deles são homens e jovens, como José Aguilar. O ritmo é de 13 casos por dia. 

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O desaparecimento afeta as famílias de uma maneira mais cruel do que outras formas de violência, como o assassinato. “Não existe desfecho. É um luto constante”, afirma Isabel Velarde Rivas. Em março, seu filho, Germán Cabrera Velarde, de 26 anos, foi levado por homens armados quando saía de casa. Desde então, sem ajuda da polícia, ela investiga o caso por conta própria. “Minha vida virou uma busca constante. Vivo em pânico, olhando para todos os lados, sempre junto ao celular. Só durmo porque o corpo pede.”

Em 2014, Lupita fundou o grupo Famílias Unidas por Nossos Desaparecidos Jalisco (Fundej), uma versão mexicana das Avós da Praça de Maio, na Argentina. Na semana passada, ela, Isabel e cerca de 15 parentes se reuniram em uma sala perto do centro histórico de Guadalajara. Na mesa, o único homem era José Raúl García. Muito abatido, ele procura pelo filho, Raúl García Galván, de 20 anos, que desapareceu em abril. “Quanto mais o tempo passa, menos esperança eu tenho de encontrá-lo”, disse. “O mais revoltante é que governo e polícia não fazem nada. Até hoje não consegui fazer um exame de DNA, porque há poucos funcionários e os corpos chegam mais rápido do que eles conseguem processar.”

Sem ajuda, é comum que os parentes assumam as investigações – pelo menos aqueles que podem bancar esse luxo. Dois meses após perder o filho, Lupita recebeu um telefonema anônimo, dizendo que o carro do filho estava em Manzanillo, no Estado vizinho de Colima, a quatro horas de Guadalajara. “O carro estava no depósito da cidade, mas não me deixaram entrar”, conta.

À noite, ela subornou um funcionário e conseguiu ingressar. Enfermeira aposentada, Lupita fez o trabalho da polícia científica. De luvas, examinou o carro, tirou fotos e retirou uma tira do tapete sujo de sangue. Mais tarde, um exame de DNA mostraria que o sangue era do filho desaparecido. Apesar de ter avançado muito mais do que a polícia, foi o mais perto que ela conseguiu chegar de José Luis.

Vários especialistas mexicanos consultados pelo Estado culpam o crime organizado pela maioria dos desaparecimentos forçados e apontam quatro razões. As duas mais comuns são a venda de crianças para adoção ilegal e a prostituição, especialmente em paraísos turísticos como Cancún. Mais raro seria o sequestro para trabalho escravo em laboratórios de processamento de droga, empacotamento e plantio de maconha e papoula. 

O tráfico de órgãos, a quarta razão por trás dos desaparecimentos, é a mais discutível. Segundo Martín Barrón, do Instituto Nacional de Ciências Penais, a cirurgia de retirada de órgãos requer mão de obra muito especializada, coisa que os cartéis não teriam. Guillermo Gutiérrez Romero, presidente da Fundação Nacional de Investigação de Crianças Desaparecidas, também é cauteloso, mas não descarta a possibilidade de que as operações sejam realizadas nos EUA.

O drama dos desaparecimentos forçados expõe um sistema de segurança pública fracassado. O México tem mais de 2 mil corporações policiais, o que aumenta o risco de conflitos de jurisdição. Algumas são federais. Outras, estaduais. A maior parte, no entanto, está na esfera municipal. Em cerca de metade dos 2 mil municípios mexicanos, a tropa tem menos de 20 policiais. Mal remunerados, trabalham 65 horas por semana, sem férias, e pagam a munição que usam do próprio bolso. 

A fragilidade faz com que as corporações municipais sejam as primeiras a entrar na folha de pagamento do crime organizado. Há alguns anos, Guadalajara, segunda maior cidade do México, capital do Estado de Jalisco, deixou seu ar de aparente tranquilidade e passou a ser território dominado pelo cartel Jalisco Nueva Generación, um dos mais violentos do país. Em todo o Estado, um em cada cinco policiais municipais está comprado pelo cartel, segundo dados da Procuradoria-Geral de Jalisco, e 70% deles não atuam contra os narcotraficantes.

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A rendição de Guadalajara

Pesquisador da Universidade de Guadalajara, explica que o Estado de Jalisco se transformou na principal rota de distribuição de drogas sintéticas

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2018 | 04h00

Há cerca de dez anos, Guadalajara era um oásis. Na segunda maior cidade mexicana viviam os principais narcotraficantes do México. Em meio à onda de violência desatada pela guerra às drogas declarada pelo presidente Felipe Calderón, em 2006, a capital de Jalisco sempre havia sido poupada. 

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O ambiente mudou com a presidência de Enrique Peña Nieto, durante a qual o cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) cresceu e se tornou a organização criminosa dominante no México. Com métodos extremamente violentos, o CJNG é capaz de organizar ações de terror no meio da tarde, executar atentados contra autoridades e derreter cadáveres em ácido. 

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Quem comanda o cartel é Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como “El Mencho”, um ex-catador de abacates que virou líder do crime organizado e homem mais procurado pela DEA, a agência antidrogas dos EUA. Um dos massacres que levam a assinatura do CJNG é o assassinato de três estudantes de cinema: Javier Salomón Aceves, Jesús Daniel Díaz e Marco Francisco Ávalos. Em março, eles foram sequestrados quando gravavam um curta-metragem em uma cabana de Tonalá, nos arredores de Guadalajara. Eles foram assassinados e seus corpos foram dissolvidos em ácido. 

Alfonso Partida Caballero, pesquisador da Universidade de Guadalajara, explica que o Estado de Jalisco se transformou na principal rota de distribuição de drogas sintéticas, especialmente pela proximidade com os portos de Manzanillo e Lázaro Cárdenas. “Com a violência, os narcotraficantes e seus parentes se mudaram para a Cidade do México”, disse Caballero ao Estado. 

De acordo com ele, o negócio ilícito se fundiu tanto com a economia legal que é difícil combater um sem afetar o outro. “Um exemplo disso é a forma como eles lavam dinheiro”, conta Caballero. “Eles investem milhões de dólares na plantação de abacates, agaves ou em qualquer cultivo. É muito difícil comprovar a origem ilegal de produtos da terra.”

O economista Edgardo Buscaglia, da Universidade Columbia, nos EUA, estima que 40% do PIB mexicano esteja vinculado ao crime organizado. Segundo ele, 78% dos setores da economia já foram infiltrados pelos cartéis, principalmente a mineração, a agropecuária e a indústria farmacêutica.

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