Crise deve ser solucionada após eleição, afirma Micheletti

Líder de facto diz que diálogo deve ser adiado para depois da votação e reitera que Zelaya não volta ao cargo

estadao.com.br,

28 de outubro de 2009 | 09h13

O presidente de facto Roberto Micheletti afirmou na terça-feira, 28, que qualquer solução para a crise política através do diálogo terá que esperar a realização das eleições de 29 de novembro. "Acredito que tudo deve seguir em torno do tema da eleição" afirmou. "Não vamos resolver absolutamente nada, nem o diálogo, nem nada, se não for posterior às eleições. Já estamos a 33 dias do pleito e não podemos jogar com essa questão, que é tão importante e que vai nos proporcionar mais segurança, mais tranquilidade e paz".

 

Veja também:

Caderno Aliás: Manual bananeiro do desconforto

especial Especial: O impasse em Honduras  

 

Micheletti fez seu comentários momentos antes da chegada de uma delegação diplomática dos Estados Unidos que pretende impulsionar as frustradas negociações para resolver o impasse político vivido no país desde a deposição do presidente Manuel Zelaya, em 28 de junho.

 

A comunidade internacional já advertiu que não reconhecerá a votação caso Zelaya não volte ao poder para promover a eleição. Micheletti não especificou se o diálogo com negociadores de Zelaya será suspenso até a realização do pleito, mas reiterou que e reiterou que o deposto Manuel Zelaya não será restituído no poder. As declarações indicam que o presidente de facto permaneceria ao menos durante o processo prévio da eleição presidencial.

 

As negociações emperraram porque Zelaya insiste em ser restituído pelo Congresso, já que o mesmo organismo emitiu o decreto para que ele fosse destituído do cargo, enquanto Micheletti sustenta que a decisão deve ser tomada pela Corte Suprema de Justiça, que emitiu uma ordem de prisão contra o líder deposto e afirmou que ele não deve retornar ao poder.

 

O líder golpista disse que no fim de semana passado conversou por telefone com a secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Segundo ele, na conversa foi falado de, entre outros assuntos, as eleições, o diálogo com os representantes de Zelaya e a visita do secretário de Estado adjunto para a América Latina americano, Thomas Shannon, que chegará nesta quarta a Tegucigalpa.

 

Em junho, o Judiciário hondurenho determinou a deposição de Zelaya. Em seguida, considerou inconstitucional a Proposta de San José, texto elaborado pelo presidente costa-riquenho, Oscar Arias, que serve de base para as negociações. Após duas decisões contrárias à restituição, a Corte dificilmente voltará atrás para recolocar Zelaya na presidência até o fim de janeiro, quando acaba seu mandato.

 

Michelleti disse que colocou a Hillary a possibilidade de deixar a Presidência se Zelaya desistir de voltar ao poder, como tinha sugerido na sexta-feira passada a uma comissão do deposto presidente, que rejeitou a oferta.

 

O presidente de fato afirmou também que expôs à chefe da diplomacia americana sua preocupação com a constante chegada de pequenos aviões de bandeira venezuelana com cargas de droga a Honduras e pediu a cooperação dos EUA para enfrentar isso. "É importante que o Exército americano nos dê espaço para poder utilizar os radares deles e podermos detectar (as aeronaves)", manifestou. Segundo Micheletti, dos 40 aviões que chegaram a Honduras nos últimos meses, 38 eram de bandeira venezuelana, um colombiana e outro brasileira.

 

Envolvimento dos EUA

 

Com as negociações travadas e a eleição presidencial hondurenha cada vez mais próxima, o Departamento de Estado dos EUA decidiu enviar para Tegucigalpa Thomas Shannon, atual secretário-assistente para Assuntos Hemisféricos. Ao anunciar o envio de Shannon, o porta-voz do Departamento de Estado, Ian Kelly, qualificou o impasse em Honduras de "urgente".

 

O funcionário americano terá a difícil missão de dar novo impulso ao chamado diálogo de Guaymuras, negociação sobre a restituição de Zelaya, iniciada há três semanas. O presidente Barack Obama designou Shannon embaixador no Brasil. A nomeação, porém, está travada no Senado. Em represália ao apoio de Obama a Zelaya, republicanos recusam-se a confirmar Shannon para o cargo, assim como o novo chefe da diplomacia para a América Latina, Arturo Valenzuela.

 

Shannon deverá se encontrar pessoalmente tanto com o presidente de facto, Roberto Micheletti, quanto com Zelaya - abrigado desde 21 de setembro na embaixada brasileira.

 

Os EUA declararam que não reconhecerão um governo eleito sem a restituição de Zelaya. Republicanos, porém, atacam o gelo imposto a Tegucigalpa e exortam Obama a rever sua posição sobre as eleições.

 

Pesquisa do Instituto Gallup indica que 76% dos hondurenhos acreditam que a eleição é a solução para a crise. A mesma sondagem mostra o candidato Porfírio "Pepe" Lobo, do Partido Nacional, com 59% das intenções de voto.

 

(Com Patrícia Campos Mello, de O Estado de S. Paulo, Efe e Associated Press)

Tudo o que sabemos sobre:
Honduras

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.