Crise hondurenha expõe tendência da diplomacia brasileira

Brasil amplia ação contra quebra de institucionalidade na América Latina

Roberto Simon, O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2009 | 07h34

Ao dar guarida ao presidente Manuel Zelaya, a diplomacia brasileira, conhecida por sua discrição, teve jogada em seu colo a principal batata quente da atual conjuntura política da América Latina: o impasse hondurenho. Contudo, não será a primeira vez que o País é empurrado a tomar posições mais ousadas no campo da política externa. Desde o início dos anos 90, o Brasil envolveu-se - por escolha ou acaso - em várias crises internas de países da região, como Paraguai, Peru e Venezuela.

 

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Um dos primeiros exemplos seria a atuação do governo Fernando Henrique Cardoso diante da iminência de um golpe contra o então presidente paraguaio, Juan Carlos Wasmosy, em maio de 1996. Wasmosy tentou afastar o general Lino Oviedo, na época pré-candidato à presidência, do comando do Exército. Oviedo recusou a ordem e ameaçou dar um golpe bombardeando o palácio presidencial.

 

Com apoio dos presidentes argentino, Carlos Menem, e uruguaio, Julio María Sanguinetti, Fernando Henrique avisou Oviedo que um golpe significaria a exclusão imediata de Assunção do Mercosul. O Brasil teria ainda ameaçado fechar as fronteiras, além de bloquear os Portos de Santos e Paranaguá às exportações paraguaias.

 

Para o professor de relações internacionais da USP Jose Augusto Guilhon, o objetivo brasileiro era demonstrar que, com o processo de integração regional, as tradicionais quarteladas sul-americanas haviam se tornado parte do passado. "Um golpe no Paraguai mancharia o esforço de modernização aos olhos da Europa e EUA", disse.

 

Ao final, o Brasil deu asilo a Oviedo e a institucionalidade no Paraguai foi mantida. Outro exemplo do envolvimento brasileiro foi a intervenção em 2000 no caso Vladimiro Montesinos, ex-chefe de inteligência do então presidente peruano, Alberto Fujimori. Montesinos havia sido flagrado num esquema de corrupção e Fujimori foi forçado a antecipar as eleições. Em meio à crise, lançou-se uma caçada no Peru ao ex-chefe da inteligência, encerrada após Montesinos receber refúgio no Panamá. O governo panamenho só teria sido persuadido a receber Montesinos após Fernando Henrique telefonar para a presidente Mireya Moscoso, pressionando pela concessão do refúgio. Ao Estado, uma autoridade do governo brasileiro familiarizada com o episódio garantiu que o contato partiu diretamente de Brasília, sem passar pela embaixada em Lima.

 

Antes das interferências no Paraguai e Peru, o Brasil tinha trabalhado para conter os confrontos entre Equador e Peru, em 1995. Os vizinhos voltaram à mesa de negociação e, em 1998, assinaram em Brasília o Acordo Global e Definitivo de Paz.

 

Mas esses casos diferem do envolvimento brasileiro em Honduras, ressalva Tullo Vigevani, professor de relações internacionais da Unesp de Marília. No Paraguai e Peru, o Brasil atuou de maneira "compartilhada", ao lado de aliados como Argentina, Uruguai e EUA, e instituições regionais como a Organização dos Estados Americanos (OEA). "Agora, em tese, estamos falando de uma ação individual motivada por Zelaya."

 

Para Guilhon, o Brasil está vivendo uma segunda transição diplomática. Primeiro, nos anos 90, o País reviu a posição "anti-intervencionista", que buscava evitar dar margem a uma ingerência ainda maior dos EUA na região. Em seu lugar, foi adotada uma política "de motivação quase defensiva", que tinha por objetivo central agir para manter a institucionalidade em países vizinhos.

 

Já sob o governo Luiz Inácio Lula da Silva, essa lógica teria sido invertida: "O Brasil agora está se passando por uma espécie de gendarme da região, sem limites claros, imitando os EUA", diz Guilhon. Um exemplo da guinada seria o apoio brasileiro ao venezuelano Hugo Chávez durante as greves que varreram o país em 2002. Em resposta, o Brasil criou o "Grupo de Países Amigos da Venezuela". "Mas nós não temos recursos para esse tipo de diplomacia. É terrível."

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