Cristina aperta o cerco e envia fiscais à redação do Clarín

Grupo comunica intimidação por receita federal argentina, após denúncia de irregularidades em ministério

10 de setembro de 2009 | 17h28

Batalhão de inspetores da AFIP entra na redação do Clarín, em Buenos Aires. Foto: El Clarín  

 

BUEINOS AIRES - O grupo Clarín, maior holding de mídia da Argentina, foi alvo nesta quinta-feira, 10, de uma operação da Associação Federal de Ingressos Públicos (AFIP, equivalente a Receita Federal) do governo de Cristina Kirchner. Entre 180 a 200 fiscais do órgão tiveram acesso ao edifício onde funcionam as redações dos jornais Clarín, Olé e La Razón.

 

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Segundo o grupo, trata-se de uma "operação de intimidação", após denúncia publicada na edição do Clarín desta quinta-feira, que dava conta que, por decisão da ONNCA (Oficina Nacional de Controle de Comércio Agropecuário), foram pagos mais 10 milhões de pesos em subsídios a uma empresa que estava em condição irregular, sem licença para funcionar. De acordo com a reportagem, o próprio órgão concedeu a empresa uma "matrícula provisória" após os subsídios. 

 

A ONNCA é dirigida por Ricardo Echegaray, aliado dos Kirchner que também está à frente da AFIP.

"Dezenas de fiscais entraram no edifício, enquanto cerca de outros cem permaneciam do lado de fora. Os que entraram se dividiram em grupos e permaneciam reunidos com os responsáveis das empresas distintas do grupo Clarín", informou o jornal em seu site

 

Em carta, chefe da AFIP nega ter ordenado operação.

 

Após o início da fiscalização, Echegaray negou ter dado ordem para realizá-la. Em carta ao editor do jornal, Ricardo Kirschbaum, ele afirma não ter autorizado qualquer "procedimento especial de inspeção nas instalações do Grupo Clarín", e assegura que serão esclarecidas as responsabilidades pela ação.

 

Dois funcionários do governo também disseram que serão abertas ações disciplinares contra dois funcionários da AFIT, afirmou Kirschbaum em entrevista à emissora de televisão TN, pertencente ao grupo Clarín. O editor do jornal acusou o governo de tentar silenciar os veículos de comunicação pertencentes ao conglomerado.

 

Na quarta-feira, a receita argentina promoveu ações similares contra outras empresas, enviando dezenas de agentes a concessionárias de automóveis sob suspeita de sonegação de impostos. As desavenças entre o governo Cristina e o grupo Clarín não são de hoje. No final de agosto, Cristina anunciou o envio ao Congresso Nacional do projeto de lei que acaba com o monopólio na radiodifusão. 

 

Em rede nacional de rádio e TV, a presidente acusou os meios de comunicação de seu país de terem "superpoderes" e alertou que "a liberdade de expressão não pode converter-se em liberdade de extorsão", em uma clara referência à briga que trava desde março do ano passado com o grupo jornalístico. No mesmo mês, o governo também tirou do grupo o monopólio para a transmissão dos jogos de futebol, quebrando um contrato de 18 anos.

 

PRESSÃO

 

Associações de jornalistas denunciaram ao longo dos últimos anos intensas pressões do governo aos profissionais da mídia, grampos telefônicos e ameaças diversas. Nas últimas duas semanas,

escritórios do jornal Clarín foram atacados com pichações de militantes governistas. Enquanto foi presidente, Néstor Kirchner nunca deu uma entrevista coletiva. Sua mulher, Cristina, só aceitou

entrevistas exclusivas com meios de comunicação aliados do governo.

Cristina também não veicula publicidade oficial nos jornais críticos. Mas, os empresários amigos do governo conseguem farta publicidade do governo. Esse é o caso de Rudy Ulloa, magnata da mídia no sul do país que lançou a revista Atitude, que na capa ostenta controvertido slogan: "Uma revista que não é

independente."

 

Texto atualizado às 21h15. 

 

(Com Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo)

 

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