Cristina é eleita presidente argentina com 44% dos votos

Primeira-dama e senadora se declarou vencedora com apenas 15% das urnas apuradas

Agências internacionais,

29 de outubro de 2007 | 04h09

Eleita com 44,10% dos votos, Cristina Kirchner obteve o mínimo de 10% de vantagem sobre a segunda colocada, Elisa Carrió, que ficou com 23,24% da preferência do eleitorado. Por volta das 6h30 desta segunda-feira, 86,5% das urnas já haviam sido apuradas.   Veja também: Veja galeria de fotos Perfil de Cristina Candidatos reconhecem vitória de Cristina Cristina é a 9ª mulher a chegar à Presidência na América Cristina faz discurso às mulheres Oposição denuncia irregularidades nas eleições Ministro nega fraude em eleição na Argentina Cristina: 'Não sou Hillary nem Evita'   Mesmo antes dos resultados oficiais, com apenas pouco mais de 15% das urnas apuradas, Cristina fez o discurso da vitória por volta das 23h30 (horário de Brasília) na noite de domingo. Em seu discurso, a senadora e primeira dama afirmou que sua vitória representa também uma questão de gênero e chamou as mulheres argentinas a participarem da luta política. Cristina agradeceu a todos e se emocionou ao falar do marido, o atual presidente Néstor Kirchner.   Cristina disse que tem "uma dupla responsabilidade" após ser escolhida presidente segundo dados oficiais provisórios do pleito realizado neste domingo."Tenho uma dupla responsabilidade, como presidente e como mulher", afirmou."Convoco minhas irmãs de gênero, donas de casa, mulheres empresárias e profissionais, operárias das fábricas, estudantes das universidades", sustentou. "Sei que podemos desenvolver uma grande tarefa por nossas aptidões especiais, por termos sido cidadãs do privado e do público, por termos articulado o mundo da família e da militância. E por termos feito bem as duas coisas", apontou.   Cristina pode ser a segunda mulher a assumir a Presidência da Argentina, e a primeira eleita, após María Estela Martínez de Perón, que em 1974 era primeira-dama e vice-presidente e chegou ao poder após a morte de seu marido, Juan Domingo Perón. A primeira-dama, de 54 anos, insistiu em que é "necessário aprofundar as mudanças" no país. Ao término de seu discurso, Cristina foi saudada ao pé do palco pela ex-candidata socialista à Presidência da França Ségolène Royal.   Kirchner, o marido   Nas eleições gerais deste domingo na Argentina, além de eleger sua esposa para sua sucessão, o presidente Néstor Kirchner quer aumentar sua hegemonia no Congresso Nacional. Das 257 cadeiras da Casa, 130 serão renovadas nestas eleições.   Atualmente, o "kirchnerismo" (corrente seguidora do presidente Kirchner) conta com o apoio de 140 deputados, enquanto que a oposição possui 117 parlamentares, dos quais 37 são da União Cívica Radical (UCR), 24 do Proposta Republicana (PRO) e aliados provinciais, 24 peronistas dissidentes, 14 do Alternativa para uma República Igualitária (ARI) e 18 de pequenos partidos.   Dos 130 mandatos que vão se renovar, o maior peso eleitoral está na província de Buenos Aires (35 cadeiras) e a Capital (12 cadeiras). Kirchner quer ficar com pelo menos 20 mandatos da província de Buenos Aires, avançando sobre um reduto que antes pertencia ao seu ex-padrinho e atual inimigo político, o ex-presidente Eduardo Duhalde. O presidente também tem avançado sobre o terreno radical, haja visto o candidato a vice de sua esposa, Julio Cobos, governador de Mendoza, que saiu da UCR.   Desafios   Apesar da vitória folgada, Cristina enfrentará uma série de desafios para os próximos quatro anos, entre eles a alta inflação, os preços das tarifas congeladas e a escassez energética. "O atual presidente postergou o que era impopular", disse à BBC na sexta-feira o economista Orlando Ferreres, da consultoria Ferreres e Associados, referindo-se à dificuldade do governo do marido de Cristina, Néstor Kirchner, em adotar políticas impopulares ao longo dos seus quatro anos na Casa Rosada.   A inflação oficial nos últimos 12 meses foi de 8,6%. Esse é um dos índices mais altos da região, segundo diferentes consultorias privadas. Ainda assim, muitos institutos independentes afirmam que o dado está muito abaixo do valor real. Uma pesquisa realizada pela Sel Consultores entre empresários revelou que, para as empresas, a inflação nesse período foi o dobro da oficial, 16,5%. O mesmo opinam diferentes economistas.   As tarifas dos serviços públicos privatizados, como gás, telefone e energia, estão, por sua vez, congeladas há seis anos. Representantes das empresas pedem ajustes, alegando que, além de congeladas, as tarifas foram "pesificadas" - desvalorizadas frente ao valor do dólar em 2002.   Crise energética   No último inverno, diferentes empresas reclamaram de cortes de luz e houve temor de um apagão. O setor empresarial argumenta que é necessário ajustar tarifas para ampliar investimentos e evitar a falta de luz no próximo verão. Segundo o jornal El Cronista, o setor industrial decidiu "colocar o pé no acelerador" agora para não sofrer ameaças de corte de energia elétrica no verão.   O setor industrial argentino usou no mês passado um índice recorde das suas máquinas (78,7% do total), num momento em que o consumo também bate altos índices, após quatro anos seguidos de crescimento econômico com taxas anuais superiores a 8%. O temor no setor industrial, afirmam diferentes economistas, é que esse alto índice da capacidade instalada gere problemas no setor de consumo e contribua para a alta de preços.   Votação   O fim da votação foi adiado por 60 minutos e concluído às 19 horas locais (20 horas de Brasília), por causa de problemas e atrasos ocorridos durante a eleição. A votação começou com atraso porque muitas pessoas que foram convocadas para trabalhar nas mesas eleitorais não compareceram, mesmo sob a ameaça de serem presas, como prevê o código eleitoral. Segundo o diretor do Comitê Nacional Eleitoral, Alejandro Tulio, cerca de 700 voluntários compareceram para ocupar as vagas de mesários e a situação se normalizou cerca de duas horas depois de aberta a votação.   Denúncias   Denúncias formais de cinco dos 14 candidatos à Presidência da Argentina, por falta de cédulas de votação com seus nomes, prometem provocar muitas polêmicas. A organização não-governamental Fundação Poder Ciudadano informou que recebeu "160 ligações telefônicas, em sua grande maioria de eleitores da Província de Buenos Aires, que denunciavam a falta de cédulas".   O sistema argentino é confuso, já que o eleitor, ao entrar na cabine, chamada pelos argentinos de "quarto escuro", se depara com inúmeras cédulas dos vários candidatos de diferentes partidos para votar. No caso da eleição para deputados e senadores, existe o sistema de listas, chamado de "sábana" (lençol, em português), que tem um cabeça de chapa, que acaba puxando votos para os demais candidatos que o seguem.   (Com AP, Efe e AE) Texto atualizado às 6h30

Tudo o que sabemos sobre:
eleiçõesArgentina

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.