Rodrigo Cavalheiro/Estadão
Rodrigo Cavalheiro/Estadão

Cristina perde apoio com caso Nisman, mas mantém força para fazer sucessor

Popularidade da presidente argentina, de 40% em dezembro, cai apenas 5 pontos após morte de promotor que a denunciou

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente de O Estado de S. Paulo

08 de fevereiro de 2015 | 12h31

BUENOS AIRES - Na Ilha Maciel, bairro miserável de Avellaneda, Grande Buenos Aires, a morte do promotor Alberto Nisman não respinga na presidente Cristina Kirchner. Inflação e recessão são culpa de agentes externos. Acusações de corrupção contra o governo são minimizadas. Graças a esses redutos, ela tem força para indicar o favorito na eleição de outubro, mesmo que sua aprovação esteja em queda, segundo consultoria ouvidas pelo Estado.

"Antes da morte de Nisman, a imagem positiva da presidente, apresentada em dezembro, era de 40%. Isso é muito para um presidente em fim de mandato", disse ao Estado Fabián Perechodnik, diretor da Poliarquía, um dos institutos mais equilibrados do país. "Dados preliminares de fevereiro, após a morte de Nisman, indicam uma baixa moderada de 5 pontos", afirma.

Nos dias seguintes à morte do promotor que denunciou Cristina por proteger iranianos acusados de praticar o atentado contra uma associação judaica que matou 85 em 1994, era comum ouvir de argentinos de classe média que o caso "lhe custaria a eleição". Passadas três semanas, analistas creem que é preciso alguma evidência que comprometa Cristina para uma reviravolta política.

O abalo à credibilidade do governo é sentido na classe média, a que mais sofre com a inflação de 23% por ano - 38% segundo cálculo independente do Congresso. Mas os redutos que o kirchnerismo formou em 12 anos - a partir de Néstor em 2003 - são ilhas em que a oposição não é bem-vinda (mais informações na página A15).

O candidato que ela apontar, por exemplo, será favorito a virar tatuagem no braço esquerdo do ex-catador Eduardo "Pulga" Fernández. Lá já estão Cristina, Néstor, o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa. Pulga converteu-se após juntar papéis e latas por 12 anos e, há 5, conseguir um emprego público no qual ganha 8 mil pesos (R$ 2,5 mil).

"Enquanto fui catador, ganhava uma bolsa do Estado de 2 mil pesos (R$ 642). Quando consegui o emprego, tentei três vezes renunciar à bolsa e não me deixavam. Minha mulher chorava pedindo que eu ficasse com o dinheiro, mas eu não quis", diz Pulga. Ele abandonou a carroça, mas não se desfez de uma mania: assim que vê uma lata no chão, a amassa e põe no bolso. "Paga o churrasco no Natal."


A desempregada Fernanda Sánchez, recebe 620 pesos (R$ 192) do Estado para manter cada uma das quatro filhas na escola e com as vacinas em dia. Como complemento, leva 2.600 pesos (R$ 830) do programa Argentina Trabaja, um auxílio-desemprego em troca de atividades na comunidade. Ela limpa o convento da Ilha Maciel e ressalta "não ser nhoque" - apelido dos que recebem benefício sem trabalhar. "Vários ficam em casa e pagam metade da bolsa a quem fiscaliza", reclama. Fernanda diz saber pouco de política, votará "em quem a chefa indicar".

Segundo o analista Perechodnik, redutos como a Ilha Maciel são uma das bases sociodemográficas do kirchnerismo, a que segue o voto peronista clássico: setores com pouca instrução na aérea metropolitana das grandes cidades, principalmente nas províncias pobres do norte. O segundo grupo é formado de eleitores instruídos de grandes centros, sensíveis a temas como direitos humanos - os Kirchners levaram adiante o julgamento de militares envolvidos em crimes na ditadura. "Há uma estratégia de sedução econômica dos setores pobres e ideológica dos setores progressistas urbanos", resume Perechodnik.

Segundo o economista chefe da consultoria Management & Fit, Matías Carugati, a fidelidade das 7 mil famílias da ilha se explica porque os pobres tiveram ganhos reais nos governos kirchneristas. "Mesmo que muitos não tenham saído da pobreza, tiveram mais benefícios. Em contrapartida, a classe média perdeu muito, principalmente com a inflação", afirma.

Ángel Ramón "Moncho" Gómez, outro ex-catador, leva e traz em um bote os moradores da Ilha Maciel para o bairro da Boca, já em Buenos Aires. Remando 12 horas por dia, nos 50 metros do braço malcheiroso do Rio da Prata, ele ganha R$ 1.200 por mês, com o que sustenta nove filhos. A travessia no barco virou opcional depois que a Ponte Avellaneda foi reformada, em 2010. Para não desempregar os barqueiros, símbolo da comunidade, o governo bancou um pier e reformou os barcos. Ganhou o voto de Moncho, de sua família e de parte dos 400 moradores que pagam R$ 1 para cruzar diariamente por ali.

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