Crítica a eleitorado portenho antecipa tensão da 'era Cristina'

Ministro kirchnerista causa reação furiosa da oposição ao dizer que Buenos Aires vota como 'uma ilha'

30 de outubro de 2007 | 15h21

Um dos focos de tensão que prometem conturbar o governo de Cristina Kirchner na Argentina ganhou força nesta terça-feira, 30, com as críticas de um alto funcionário da Casa Rosada ao eleitorado que não escolheu a governista como sua represenante nas eleições presidenciais de domingo. A disputa acontece menos de dois dias após a confirmação da vitória da primeira-dama e a pouco mais de um mês antes da posse, no dia 10 de dezembro.   Veja Também Baterista do The Police ironiza Cristina, Bachelet e Hilary Kirchner diz que resultado foi uma 'surra' eleitoral Cristina defende o Mercosul e deseja sorte para Hillary Eduardo Viola: 'Cristina deve se afastar de Chávez' Cristina Kirchner visitará Brasil antes da posse Cristina terá maioria legislativa Derrotada, Carrió se proclama líder da oposição Perfil de Cristina   A polêmica começou na segunda-feira, 29, depois que o chefe-de-gabinete do governo, Alberto Fernández, chamou o eleitorado de Buenos Aires de "soberbo" por votar majoritariamente na candidata da oposição, Elisa Carrió. Nesta terça, ao explicar sua declaração, ele voltou a dizer que a capital não integra um "projeto integrado de país".   "Outro dia me fez rir esta idéia de que os maiores soberbos desse país estejam reivindicando a Cristina sua condição de soberba", disse Fernández à Rádio América. Em seguida, ele recomendou "que a cidade se integre, seja parte do país e deixe de votar como uma ilha".   Apesar da vitória histórica e arrasadora (Cristina obteve aproximadamente 45% dos votos do eleitorado argentino, um resultado que não acontecia em anos), a presidente eleita foi derrotada por Carrió em Buenos Aires e outros centros urbanos, num claro sinal de que seu governo dificilmente contará com a simpatia das classes alta e média do país.   Mais do que um fato isolado, o resultado em Buenos Aires é a confirmação de uma tendência. Há quatro meses, o ministro da Educação de Kirchner, Daniel Filmus, perdeu as eleições para o governo da capital para o líder oposicionista Mauricio Macri.   As declarações de Fernández geraram forte reação na oposição. Já na segunda-feira, a chefe de campanha de Carrió, Patricia Bullrich, classificou o chefe-de-gabinete de Kirchner de "intolerante".   "As declarações de Fernández demonstram cabalmente seu espírito intolerante e irreflexivo. Não podemos permitir que faltem com o respeito aos portenhos, qualificando-os de soberbos. A sociedade não precisa de funcionários que se dediquem a gozar os que pensam diferente", disse Patricia em declarações ao Clarín.   Segundo ela, o resultado na capital, que se repetiu em "outras localidades", coloca o partido de Carrió, a Coalizão Cívica à frente da oposição argentina.   Mais barulho   O acirramento das tensões entre governo e oposicionistas continuou nesta terça-feira, com a "tréplica" de Fernández, que rejeitou as interpretações de suas declarações de segunda como uma afronta à população portenha.   Ele destacou ser ele mesmo um cidadão de Buenos Aires, e disse "amar a cidade". Ainda assim, ele voltou a insistir que os "portenhos sistematicamente" votam "diferente do resto do país".   "O que expressei foi um pensamento pessoal meu. Me encantaria ver alguma vez a cidade de Buenos Aires se juntar a um projeto integrado de país", explicou o chefe-de-gabinete de Kirchner.   Carrió também se pronunciou pessoalmente nesta terça-feira sobre as declarações de Fernández. Segundo ela, "as grandes classes médias argentinas" que a apoiaram não tiveram um voto soberbo, mas sim pronunciaram-se contra um "estilo (de governo) que implica em corrupção, nepotismo, falta de justiça social e de desenvolvimento econômico".   Ela destacou ainda, em entrevista à rádio 'La Red', que a mensagem das urnas de Buenos Aires é de que as classes média e alta argentinas não querem uma "república de bananas". Para ela, seus eleitores "não votaram contra o crescimento", mas sim porque "simplesmente disseram aos poderosos: 'queremos ser como nos ensinaram nossos avós'".

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