Cuba entra na era pós-Fidel à espera de reformas de Raúl Castro

População espera que afastamento do líder garanta ao irmão mais liberdade para adotar mudanças estruturais

Agências internacionais,

20 de fevereiro de 2008 | 07h59

Depois de 19 meses sob o comando da presidência interina de Raúl Castro, a população cubana começou nesta quarta-feira, 20, a lenta etapa de transição após a saída oficial de Fidel Castro da Presidência da ilha, na espera de que o irmão do líder que governou Cuba por 49 anos, provável sucessor definitivo, traga mudanças econômicas.  Após 49 anos, Fidel Castro renuncia à Presidência Artigo publicado no Granma (em português) A trajetória de Fidel Castro  Principais capas do Estadão sobre Fidel  Guterman: como a história julgará Fidel?   Fidel Castro: herói ou vilão?  Ruy Mesquita fala sobre Fidel Castro e Cuba Leia cobertura completa da renúncia de Fidel    As expectativas são fundamentadas no discurso de Raúl, sobre "mudanças estruturais" e "grandes decisões". A ilha amanheceu calma e digerindo pouco a pouco a mensagem do Comandante, que aos 81 anos, comunicou sua aposentadoria por meio de uma carta publicada pelo diário oficial Granma. No texto, ele fala dos problemas de saúde e aponta para a necessidade de o povo cubano acostumar-se com sua sucessão. "Preparar (os cubanos) para minha ausência, psicológica e politicamente, era minha principal obrigação depois de tantos anos de luta."   A renúncia de Fidel Castro reduz, mas não elimina as incertezas sobre a sessão da Assembléia Nacional cubana de domingo, na qual os 614 deputados anunciarão quem será o novo chefe do Conselho de Estado - principal órgão do Executivo cubano. O mais provável, segundo analistas, é que o indicado seja mesmo o irmão mais novo de Fidel, Raúl Castro, de 76 anos, que desde julho de 2006 é o presidente em exercício na ilha. No entanto, é possível que haja surpresas.   Sua decisão se dá em um momento crucial, em que os cubanos vivem um intenso debate sobre os problemas estruturais do país e que a direção do Partido Comunista busca a renovação, a correção de erros políticos e econômicos, o fim da atrofia burocrática e o aumento da eficiência produtiva.   Os problemas provocados pela ruína econômica devem continuar a ser os principais desafios do governo cubano. Nos últimos meses, Raúl ajudou a impulsionar as expectativas de reforma, prometendo "mudanças estruturais". "Temos o dever de questionar o que fazemos para fazer melhor; para transformar concepções e métodos que eram apropriados em certo momento, mas foram superados", disse, num discurso em julho.   As queixas dos cubanos vão desde os baixos salários - em torno de US$ 15 por mês - até as restrições para que viajem, abram negócios ou freqüentem hotéis. Mesmo o sistema de saúde, que antes era um dos cartões de visitas da revolução, está cada vez mais sucateado. Cerca de um terço dos médicos, por exemplo, foi trabalhar na Venezuela, num acordo que está entre as principais fontes de recursos do governo, mas prejudica o atendimento na ilha.   "Deve haver alguma mudança, mais liberdade com Raúl", disse Andres, 63, que como muitos cubanos não quis revelar o seu sobrenome temendo represálias ao falar sobre os irmãos Castro. A renúncia pode realmente garantir ao irmão de Fidel mais autonomia do que enquanto ele comandava a Presidência interina, por conta do afastamento do chefe de Estado.   O Castro mais novo elevou as expectativas por uma abertura controlada da economia cubana ao citar o seu fascínio com o estilo de capitalismo adotado pela China. Ele ainda encorajou a população a participar de um debate crítico e aberto, embora tenha lembrado de que a decisão final deva ser tomada pelos líderes comunistas da ilha.   Fidel, entretanto, insistiu em sua carta que não desaparecerá. Centralizador até na hora da despedida, foi assim, por vontade própria, com dia e hora marcados, que o velho revolucionário saiu de cena. Não foi um adeus, como deixou claro o próprio Fidel em sua carta-renúncia. Foi-se o comandante, mas ficou o companheiro, que continuará comandando o país dos bastidores.   Nas ruas de Havana, embora conscientes do momento histórico que representava a renúncia, os cubanos reagiram com uma discreta indiferença. "Isso não é notícia", disse Elizardo Sánchez, um dos líderes da dissidência e fundador da Comissão Cubana para Direitos Humanos e Reconciliação. "A renúncia já era esperada e não muda a situação dos direitos humanos nem o sistema de partido único. Não há razão para comemorar."   Até agora, quem está melhor cotado para conseguir a liderança do Executivo cubano - além de Raúl, obviamente - é Carlos Lage, de 56 anos, um dos cinco vice-presidentes do Conselho de Estado e secretário-executivo do Conselho de Ministros. Pediatra de formação, Lage tornou-se conselheiro de Fidel nos anos 90, quando o país parou de receber subsídios anuais de até US$ 6 bilhões após o colapso da União Soviética. Nessa época, conhecida como "período especial", tanto ele quanto Raúl apoiaram as reformas que permitiram a abertura de pequenos negócios.   (Com Ruth Costas, de O Estado de S. Paulo)

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