Cuba liberta sete presos políticos e os envia à Espanha

Grupo faz parte dos 52 prisioneiros que serão libertados gradualmente em até quatro meses

AP, Reuters e Efe,

12 de julho de 2010 | 21h43

HAVANA- O governo cubano libertou na noite desta segunda-feira, 14, os primeiros sete presos políticos de uma lista de 20 que serão enviados à Espanha na condição de refugiados políticos junto a seus familiares. Os sete já embarcaram rumo ao país europeu, o que foi confirmado no twitter da blogueira opositora Yoani Sánchez.

 

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"Vários amigos no aeroporto Jose Marti ficaram sem se despedir dos libertados. Os meteram no avião sem que fossem vistos", disse a crítica ao governo castrista em sua página na rede social.

 

Os sete ex-prisioneiros que chegarão em Madri são: Pablo Pacheco, Omar Ruiz, Antonio Villarreal, Julio César Gálvez, José Luis García Paneque, Léster González y Ricardo González.

 

Omar Ruiz, que cumpria uma pena de 12 anos por traição, afirmou que ele e outro seis ex-prisioneiros foram levados em uma van para o aeroporto internacional Jose Marti, em Havana, onde se reencontraram com seus familiares em uma sala de espera especial. Depois, embarcaram em um voo comercial com destino a Madri.

 

"Nós estamos, neste momento, andando até o avião", disse Ruiz à Associated Press em uma conversa através de seu celular. "Eles nos trouxeram por trás do aeroporto, e estão nos observando", acrescentou. "É por isso que não me considero livre até chegar à Espanha".

 

A libertação faz parte de um acordo firmado na última quarta-feira entre o presidente Raúl Castro e o cardeal Jaime Ortega, máxima autoridade católica de Cuba, e com o ministro de Assuntos Exteriores da Espanha, Miguel Ángel Moratinos, no qual foi decidido que 52 presos políticos remanescentes da repressão conhecida como "Primavera Negra", de 2003, serão libertados gradualmente em até quatro meses.

 

Apesar do prazo relativamente longo, esta é a maior libertação de prisioneiros políticos desde 1998.

 

A Espanha concordou em aceitar o primeiro grupo libertado, mas não está claro se os próximos a serem soltos também serão enviados para Madri.

 

Desde sábado, Cuba começou a concentrar numa instituição militar de Havana parentes dos presos políticos que serão libertados. Os presos propriamente ditos foram agrupados na clínica da prisão Combinado Leste, também na capital, onde passaram por exames médicos e receberam documentos para viajar.

 

Moratinos disse que a Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado e a Cruz Vermelha vão ajudar o grupo a encontrar moradia. "Mas depois serão, como não pode ser de outra maneira, cidadãos livres e gozarão de todos os seus direitos", afirmou ele à rádio estatal RNE.

 

A Igreja afirmou que outros 13 ativistas da oposição e dissidentes presos serão libertados em breve. Não se sabe se os próximos a serem soltos serão autorizados a permanecer em Cuba, ou se serão enviados a outro país. Os Estados Unidos e o Chile já se ofereceram para garanti-los asilo, assim com a Espanha.

 

Elizardo Sanchez, líder da Comissão de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional de Cuba, disse que ao menos três presos pediram a Ortega que os mantenha fora do grupo a ser enviado à Espanha, porque querem permanecer na ilha.

 

Horas antes do grupo de sete prisioneiros ser escoltado da prisão ao aeroporto, seus parentes ficaram de sobreaviso para deixar a país a qualquer momento. "No domingo eles fizeram exames médicos, prepararam a documentação e nos disseram para ficarmos prontos a partir de segunda", disse Irene Viera, mulher de Julio Cesar Galvez, que estava cumprindo uma sentença de 15 anos de prisão.

 

Todos os 75 detidos em 2003 foram acusados pelo governo cubano de trazer dinheiro de Washington para desestabilizar o governo comunista da ilha - crimes que tanto os presos como os oficiais americanos negaram. Destes, 23 foram soltos previamente.

 

Antes das libertações desta segunda, a comissão de Sanchez havia afirmado que Cuba mantém 167 presos políticos - o número mais baixo desde que Fidel Castro tomou o poder em 1959. Se o governo mantiver sua promessa, esse total cairá para cerca de 115 e todos, menos um dos considerados "presos de consciência" pela Anistia Internacional serão libertados.

 

A exceção seria Rolando Jimenez, que Sanchez identificou como um oficial da polícia, mas a Anistia Internacional afirma que é um advogado. Ele foi preso em abril de 2003 e está cumprindo 12 anos de prisão por desacato à autoridade e "revelação de segredos sobre a segurança policial estatal" depois de ter reconhecido publicamente que apoia os presos detidos na Primavera Negra.

 

Alguns dos outros presos ainda considerados presos por razões políticas pela organização de Sanchez são culpados de atos violentos - incluindo atentados a bomba em hotéis de Havana que mataram um turista italiano nos anos 90.

 

O governo da ilha afirma que não mantém nenhum preso político e defende que todos os países tem o direito de prender traidores.

 

Reações

 

O dissidente cubano Guillermo Fariñas, que estava em greve de fome há quatro meses pela libertação de presos políticos doentes, encerrou seu jejum um dia depois que as libertações foram anunciadas.

 

Laura Pollan, líder das "Damas de Branco" - mães, mulheres e irmãs dos 75 presos detidos em 2003 - afirmou no domingo que o grupo continuará com suas marchas de protesto semanais até que Cuba liberte todos seus prisioneiros políticos.

 

No entanto, o tema central do grupo era a libertação dos 52, seus filhos, esposos e irmãos que foram presos. Cuba quer enviá-los para a Espanha e até agora a maioria aceitou a oferta, o que significa que muitas das "Damas de Branco" podem partir para a Europa em breve.

 

A dissidente Mirian Leiva disse que libertar os presos "resolve uma grande injustiça" e "reduz um tema que tem atrapalhado qualquer tipo de abertura interna e externa".

 

Especialistas alertam, contudo, à resposta dos Estados Unidos a libertação dos prisioneiros, o que é exigido por Washington como condição para melhorar as relações. Os EUA, no entanto, podem não estar dispostos a uma grande mudança devido a detenção em dezembro do empreiteiro americano Alan Gross, preso em Cuba por suspeita de espionagem.

 

Atualizado às 23h31 para acréscimo de informações

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