Cuba não precisa de 'ingerência' de Brasil ou EUA, diz Lula

Presidente afirma que cubanos devem decidir sozinhos como será a sucessão após renúncia de Fidel

BBC Brasil,

19 de fevereiro de 2008 | 16h55

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira, 19, que os cubanos têm maturidade para resolver seus próprios problemas "sem precisar nem da ingerência brasileira nem americana".  Renúncia não retira caráter de mito, diz Lula Itamaraty vê transição como oportunidade Embargo dos EUA a Cuba continua sem Fidel Raúl Castro torna-se guardião da revolução A trajetória de Fidel Castro  Principais capas do Estadão sobre Fidel  Guterman: como a história julgará Fidel?   Fidel Castro: herói ou vilão?  Você acha que o regime em Cuba mudará? Leia cobertura completa da renúncia de Fidel  De acordo com Lula, os cubanos devem decidir sozinhos como será a sucessão do líder Fidel Castro, que estava licenciado do cargo desde 2006 e renunciou ao poder nesta terça-feira.  Lula disse que a sucessão comandada pelo própria Fidel "dá uma tranqüilidade" para a América Latina.  "Se ele tomou essa iniciativa, eu acho que deve ser bom para Cuba, e o Brasil está satisfeito que seja assim", afirmou. "Um processo muito tranqüilo."  "Nós temíamos que uma situação adversa acontecesse em um sistema turbulento e que os cubanos de Miami tentassem achar que já era dia de voltar para Cuba e transformar Cuba em um território de conflito", acrescentou o presidente.  Mito  Lula afirmou ainda que o grande "mito" representado por Fidel Castro permanece em vigor.  "Fidel é o único mito vivo da história da humanidade", disse o presidente. Um mito construído, nas palavras de Lula, "às custas de muita competência, caráter, força de vontade e também de muita divergência, de muita polêmica".  O presidente se encontrou com Fidel no último dia 15 de janeiro e disse ter sentido que talvez o líder cubano decidisse se afastar do governo.  "Eu voltei com a impressão, até comentei com meus ministros, de que o Fidel estava analisando a situação política e estava querendo criar as condições políticas para que isso pudesse acontecer", afirmou Lula.  Visita e Raúl  Depois do encontro, o presidente disse em Havana que Fidel estava "com uma saúde impecável", mas, no dia seguinte, o próprio Fidel publicou um artigo no jornal oficial Granma em que afirmava que não estava em condições de fazer campanha eleitoral.  Fidel publicou vários artigos nos dias seguintes com reflexões sobre a conversa que teve com Lula.  No primeiro, no dia seguinte à visita, disse que o Brasil poderia ser a "tábua de salvação" para a América Latina porque tinha terra e clima suficientes para plantar alimentos e biocombustíveis ao mesmo tempo, recuando de críticas anteriores ao etanol.  Lula elogiou o presidente interino e irmão de Fidel, Raúl Castro, com quem se encontrou na viagem de janeiro. O presidente disse que já convidou Raúl para visitar o Brasil e que vai reafirmar o convite.  "O Raúl é um homem altamente preparado, está junto com Fidel desde Sierra Maestra, é um homem que comandou as Forças Armadas esse tempo inteiro", disse. "Tem uma visão de mundo muito, muito importante."  Relações econômicas  O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que o Brasil tem a expectativa de intensificar com o governo cubano as relações econômicas e comerciais, ao comentar o futuro da ilha com a saída de Fidel.  De acordo com o chanceler, o Brasil reconhece a importância da figura de Fidel Castro na política internacional, e o governo mantém a atitude de engajamento e bom relacionamento político com Cuba.  Lula também reafirmou o interesse econômico no país, com quem o Brasil teve no ano passado uma corrente de comércio de US$ 412 milhões.  O presidente lembrou que a Petrobras tem interesse no país. "Queremos fazer prospecção", disse. "Temos acordos importantes para assinar nos próximos dias na área da saúde, na área de laboratório, construção de estradas, recuperação de hotéis."  Segundo Lula, os investimentos brasileiros em Cuba são parte da política de integração da América Latina.  "Ou o Brasil faz os grandes gestos para que haja integração na América Latina por ser a maior economia, ou a integração não vai acontecer", afirmou. "Cuba faz parte dessa nossa estratégia."  Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Mais conteúdo sobre:
Fidel CastroCubarenúncia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.