Cuba terá de fazer adaptações para se manter socialista

Em debate na TV Estadão, ex-embaixador do Brasil na ilha afirma que regime sofrerá 'adaptações necessárias '

Marina Ramos, do estadao.com.br,

25 de fevereiro de 2008 | 15h52

O ex-embaixador do Brasil em Cuba Tilden Santiago (2003 a 2006) disse, em debate promovido na tarde desta segunda-feira, 25, pela TV Estadão - veja os vídeos abaixo -, não acreditar em uma mudança imediata no regime da ilha. Segundo ele, o que pode acontecer são adaptações necessárias para o país. Já para o sociólogo Demétrio Magnoli, o que se observa neste momento pós-eleitoral de Cuba é "um forte atrito pelo poder".   Magnoli disse que a transição do poder de Fidel Castro para seu irmão Raúl, eleito presidente neste domingo, não seu deu apenas por questões de saúde. Para Magnoli, existe uma disputa pela liderança da nação.   Veja também: EUA criticam continuidade da 'ditadura Castro' O comandante sai de cena  Leia a cobertura completa da sucessão de Fidel Raúl diz que reduzirá Estado e manterá consultas a Fidel Debates Estadão: O futuro de Cuba pós-Fidel (1) Debates Estadão: O futuro de Cuba pós-Fidel (2) Debates Estadão: O futuro de Cuba pós-Fidel (3) Debates Estadão: O futuro de Cuba pós-Fidel (4)   "Fala-se de uma transição e uma volta à democracia. Eu não vejo isso de imediato. O que eu percebo é que Cuba irá fazer adaptações necessárias para o país. A nova conjuntura mundial pede isso. Essa realidade vai exigir adaptações de Cuba", disse Santiago.   "Nas eleições ficou claro que Cuba ainda é uma nação que tem, a partir do partido único e do poder de estado, o objetivo de construir e dar seqüência ao socialismo".   Já para Magnoli, o que se observa em Cuba é um forte atrito pelo poder. "O afastamento de Fidel Castro não se deu apenas por questões de saúde. É preciso olhar com atenção o movimento de atrito na sociedade cubana".   Sobre o futuro da ilha, Magnoli disse que "é difícil afirmar o que vem por aí. O importante é analisar o que já existe. E o que existe é uma ditadura. A divergência política só existe no partido único que tem o poder, e com isso a sociedade civil fica estatizada."   Santiago montou um panorama pós-eleitoral e analisou que as escolhas feitas na Assembléia Nacional no domingo, 24, demonstram o objetivo de Cuba em não abandonar sua proposta socialista. "Para mim, Cuba tem uma opção clara e determinada pelo projeto socialista, e não vejo sinais de abandonar isso. Uma prova é a escolha da Assembléia Nacional para os postos mais destacados do governo, como Carlos Lage e Machado Ventura, por exemplo".   As opiniões divergentes ficaram mais claras quando Santiago apresentou alguns problemas reais da ilha e pontos positivos conquistados, "como os avanços na saúde, educação, cultura popular, nas artes, e etc". Um dos problemas exposto pelo ex-embaixador é a "reunificação da família cubana". "O povo cubano é dilacerado política e ideológicamente, e eu não vejo uma solução para isto".   Entretanto, o ex-embaixador afirmou também que, ao contrário do que se pensa, "Cuba não é só negatividade".   Magnoli, contudo, disse que "o que se prega é um discurso falso". "É o 'mito da ditadura benigna', que diz que a ditadura, apesar de tudo, construiu uma sociedade onde os indicares sociais são muito bons. É mentira que a revolução produziu milagres sociais e que a ditadura tem poderes milagrosos, como dizem os propagandistas de Cuba. Ditadura não é benigna, benigna é sempre a democracia", declarou Magnoli, apresentando dados que comprovam que os indicadores sociais da ilha já eram bons antes da revolução.   No final do debate, Magnoli comentou a opinião dos candidatos à Presidência dos Estados Unidos em relação ao embargo econômico imposto pelo país. "John McCain, aparentemente, pretende manter a intolerável e cega posição que os Estados Unidos adotam de bloqueio econômico a Cuba. Tanto Barack Obama como Hillary Clinton, os dois candidatos democratas, falam em começar um diálogo com Cuba e, possivelmente, a partir deste diálogo, suspender o embargo. Eu acho que uma vitória democrata nos EUA produziria uma mudança importante para esta questão", concluiu.

Tudo o que sabemos sobre:
Debate TV EstadãoCuba

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.