Cúpula da Unasul termina sem consenso sobre bases dos EUA

Sem saída interna para conflitos, Lula convida Obama para tratar de garantias de não-agressão a países vizinhos

Efe; AE-AP; Reuters e Denise Chrispim Marin, enviada especial,

10 de agosto de 2009 | 18h50

A cúpula da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), realizada em Quito, terminou nesta segunda-feira, 10, sem um pronunciamento comum sobre o acordo militar negociado entre a Colômbia e os Estados Unidos, o qual, segundo o presidente venezuelano, Hugo Chávez, pode levar a uma guerra regional.

 

Veja também:

link Lula abandona reunião da Unasul por causa de José Alencar

linkColômbia nega incursão militar na Venezuela

linkPolêmica das bases volta a isolar EUA na região

linkEUA querem recursos econômicos de Bogotá, diz Fidel

 

O Equador assumiu nesta segunda-feira, 10, a Presidência da Unasul em um panorama de alta tensão regional, pelo acordo sobre o uso de bases militares na Colômbia pelos EUA, atualmente em fase de negociação.

 

Embora não estivesse no roteiro da reunião realizada no Convento de Santo Agostinho, da qual o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, foi o grande ausente, Chávez provocou o debate sobre as bases militares para advertir sobre a possibilidade de um conflito bélico se os EUA formalizarem sua presença na Colômbia. "Ventos de guerra começam a soprar", alertou o presidente venezuelano, quem se queixou diante de seus colegas de a III Reunião Ordinária da Unasul não ter incluído o polêmico assunto em sua declaração final.

 

Obama

 

Sem saída interna para os conflitos sobre a presença americana em bases militares da Colômbia, a União de Nações Sul-americanas (Unasul) optou por "convocar" o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para tratar de garantias de não-agressão aos países vizinhos. A sugestão partiu do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, ao final do encontro, tratou de abafar o tom mais agressivo de seus colegas Hugo Chávez, da Venezuela, e Rafael Correa, do Equador, e de propor uma saída conciliadora.

 

Lula deu um passo além, na reunião de Quito, ao propor um novo encontro entre a Unasul e Obama, no mesmo formato que ocorreu na Cúpula das Américas, em abril passado, em Trinidad e Tobago. Conforme informou, deverá telefonar na semana que vem a Obama para conversar sobre o assunto. Em princípio, as chancelarias do Brasil e de outros países da Unasul trabalharão com a ideia de promover o encontro em Nova York, em paralelo à abertura dos trabalhos da Assembleia Geral das Nações Unidas, que se dará em 23 de setembro.

 

À imprensa, antes de embarcar de volta ao Brasil, Lula deixou claro que não vislumbra um conflito armado na América Sul, seja em função das bases colombianas ou de outra questão. Explicou que essa é a visão do Chávez, líder que se mostra "desconfiado e sensível" porque sofreu um golpe de Estado, em 2002. Conforme indicou, seria interessante tratar com Obama de problemas que se acumulam nas relações entre a América do Sul e os EUA, como a garantia de que as ações de seus militares na Colômbia não se estenderão pelos países vizinhos e a reativação da Quarta Frota Naval, em 2008.

 

"Temos de discutir nossa inconformidade com o Obama. O clima de inquietação que há na região me incomoda", afirmou. "Mas também temos de nos colocar de acordo sobre o futuro da Unasul. Senão, deixaremos de ser um processo de integração para sermos só um grupo de amigos", completou.

 

Reunião

 

Os chanceleres da Unasul decidiram este domingo, 9, não formular nenhum pronunciamento a respeito, pela falta de consenso sobre uma proposta de resolução apresentada pela Bolívia para que o organismo rejeitasse a instalação de bases militares estrangeiras na região. No entanto, durante os debates, os presidentes concordaram com a realização de uma reunião de ministros de Defesa e de Relações Exteriores dos países da Unasul, no próximo dia 24, em Quito, para tratar do tema.

 

Representante do governo Uribe, Clemencia Forero, vice-chanceler da Colômbia ressaltou que essas futuras reuniões não devem se ater apenas a questão das bases, mas abarcar outros tópicos que igualmente suscitam tensões e desestabilização na América do Sul, como o tráfico de drogas e de armas e a ação de "grupos ilegais". Clemencia teve especial cuidado para não mencionar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) - grupo que, para o governo Uribe, recebe ajuda material e acolhida da Venezuela e do Equador. Como presidente da Unasul, Correa acatou a ideia.

 

O próprio Correa propôs que, em seguida, fosse organizada uma reunião extraordinária de cúpula da Unasul, ainda sem data marcada, em Buenos Aires ou Bariloche. A Argentina, nesse caso, teria o caráter de "território neutro", no qual Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, não encontraria entraves diplomáticos para comparecer nem desculpas para se ausentar, como ocorreu no encontro de Quito.

"Ficou claro também que não dá para discutir a questão da Colômbia sem a presença da Colômbia e que o presidente Uribe não poderá se sentar na (próxima) reunião como se fosse réu. Ele tem de sentar em igualdade de opinião", afirmou Lula.

 

O enfático discurso de Chávez - que chegou a dizer que a Venezuela está se preparando para essa guerra e acusou a Colômbia de defender a tese do ataque preventivo - gerou declarações dos outros presidentes sobre a preocupação tanto sobre o acordo militar, quanto pela crescente beligerância na região.

 

Declaração final

 

A declaração final assinada pelos presidentes não trouxe nenhuma citação a respeito do tema. Mas, durante a reunião, Chávez rompeu o protocolo, que não previa debates por conta do tempo exíguo, e expôs sua versão de que a presença militar americana na Colômbia é uma agressão à Venezuela e traz uma séria ameaça à estabilidade da região. "Ventos de guerra começam a soprar", afirmou. "Hoje isso pode ser o começo de uma nova tragédia. A Unasul é um bebê e está sob ameaça".

 

A "Declaração de Quito", aprovada pela Unasul, encoraja o fortalecimento da integração regional, com a possível criação da "cidadania sul-americana" ou de um Conselho Sul-Americano de Direitos Humanos. Além disso, os líderes da Unasul entraram em acordo sobre a criação dos conselhos de Infraestrutura e Planejamento, de Luta contra o Narcotráfico, de Educação, Ciência, Tecnologia e Inovações e de Desenvolvimento Social.

 

A argentina Cristina Fernández de Kirchner advertiu sobre um "estado de beligerância inédito e inaceitável" e se ofereceu como anfitriã para uma cúpula extraordinária da Unasul, em Buenos Aires, para tratar o tema com a presença do presidente Uribe.

 

O presidente da Bolívia, Evo Morales, disse que é "obrigação" da Unasul "salvar o povo colombiano dos militares americanos", enquanto o paraguaio Fernando Lugo pediu que não "coloquem nenhum governante no banco dos réus", em alusão a Uribe.

 

Colômbia

 

Como representando da Colômbia, a vice-chanceler, Clemencia Forero, insistiu que em seu país não há, nem se instalarão bases militares estrangeiras e que a negociação de Bogotá com Washington só estabelece um acesso limitado aos militares americanos.

 

O Governo da Colômbia considerou como "positivo" que não haja nenhuma menção ao acordo militar negociado com os Estados Unidos no documento final da cúpula da União de Nações Sul-americanas (Unasul), realizada hoje em Quito, segundo um porta-voz da Chancelaria colombiana consultado pela Agência Efe. Além disso, a fonte opinou que a Colômbia "não considera oportuno" comparecer a uma reunião já programada entre ministros da Defesa e das Relações Exteriores sul-americano, a qual deve acontecer em Quito, "pelas mesmas razões" pelas quais o presidente colombiano, Álvaro Uribe, não assistiu à cúpula da Unasul.

 

A fonte acrescentou que, caso a reunião de ministros ocorra em outro país, "a Colômbia compareceria e, de quebra, seria bom tratar de outros temas como o armamentismo, o tráfico ilegal de armas e o terrorismo". Sobre a assistência de Uribe a uma cúpula de presidentes da Unasul na Argentina assinalou que ainda não há confirmação.

 

Direção da Unasul

 

Neste ambiente de preocupação, o presidente equatoriano, Rafael Correa, assumiu a direção de Unasul com o propósito de aprofundar a integração regional e com o desejo de que a América do Sul se transforme na quarta região mais desenvolvida do mundo. Correa recebeu o cargo da presidente chilena, Michelle Bachelet, que dirigiu o organismo desde a assinatura de sua ata constitutiva, em maio de 2008, e que transferiu a ele o desafio de consolidar a democracia na América Latina, já que isto ainda não foi alcançado, segundo ela.

 

Bachelet fez as afirmações em presença do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, que recebeu hoje o apoio da cúpula da Unasul, com uma declaração de condenação ao golpe de Estado em seu país. Correa recebeu a direção da Unasul acompanhado de todos os presidentes dos países-membros, com exceção de Uribe, do peruano Alan García, do surinamês Ronald Venetiaan e do uruguaio Tabaré Vázquez.

 

Correa, que se mantivera alheio ao tema em seu discurso de posse como presidente temporário da Unasul, tomou novamente a palavra para qualificar o acordo entre os EUA e a Colômbia como uma "provocação" e para alertar que o acerto trará um "tremendo perigo para a região". Outro aliado bolivariano, o presidente Evo Morales, da Bolívia, defendeu que a Unasul declarasse estado de emergência. "Esse não é um assunto de soberania de um país", afirmou Correa, em contraposição a um dos argumentos de Bogotá. "É uma questão de segurança".

 

O presidente do Peru, que não tinha previsto participar da cúpula, somente da posse de Correa para o segundo mandato na Presidência do Equador, não conseguiu chegar a tempo, pois seu avião teve que fazer um pouso de emergência por problemas técnicos.

 

Honduras

 

A Unasul também declarou que "não haverá reconhecimento, de nenhuma maneira, à ruptura da ordem institucional e democrática" e condenou o "o golpe de Estado em Honduras".

 

A Unasul convocou a comunidade internacional a "extremar os recursos necessários e adotar novas medidas para assegurar a restauração" do presidente deposto José Manuel Zelaya ao poder em Honduras.

 

A Unasul ressaltou a "importância dos meios de comunicação" no fortalecimento da democracia e da participação cidadã, em um momento no qual governos como o da Venezuela e do Equador mantém tensas relações com a imprensa nos respectivos países.

Tudo o que sabemos sobre:
UnasulColômbiabases militaresEUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.